Brasil é sinônimo de injustiça
Mexa sua cabeça, olhe em volta. Muita gente poderia estar pior, eu também se não fosse abraçada pela sorte. Tantos não reconhecem a própria condição miserável por que são herdeiros de propriedades rotas, inflacionadas pela ganância. Quantos não têm sequer um pedaço de chão pra plantar uma batata mas se acham melhores em seus andares superiores? Qualquer instabilidade social pode acabar com o conforto da vida urbana, quem não tem chão não tem nada. Se amanhã houver guerra (o que não é difícil, ainda vivemos na ditadura militar, acreditem!), condomínios não têm fontes de água ou plantações de qualquer espécie alimentícia para garantir a sobrevivência de seus moradores. E por isso tanta gente briga por terra, qualidade de vida não está em condomínio fechado e vigiado, está no chão e na liberdade de um céu e uma terra só para sua família. Por isso Pinheirinho foi desocupado, pois servirá aos interesses de quem pode vender chão para quem pode pagar pelo privilégio que hoje é tão caro. E quem vende? Parceiros de negócios dos candidatos das eleições desse ano, financiarão campanhas de tucanos e petistas, gregos e troianos, vão beijar bebês pobres e ricos para as câmeras…
Humildade?
É meu dilema a percepção de que fui enganada, mas não quero mais. A impressão é essa. Não só pela família, mas tudo o que vi, li, assisti, ouvi e aprendi dizia e repetia que nascemos por algum motivo, que para crescer e me considerar madura era preciso evoluir e ser melhor, maior, mais inteligente e bondosa. Ser bom sempre foi a grande lição de toda a moral de quase toda história. Claro, ser bom sempre é confundido com ser obediente e ingênuo, mas nunca vi bondade ser sinônimo de indiferença para com o sofrimento alheio. Aí que já posso me julgar adulta agora que não sou adolescente e tenho crianças sob minha responsabilidade. Ou seja, posso dizer que cresci, apesar de acreditar estarmos todos em pleno desenvolvimento até o fim de nossas existências.
Hoje em dia a lição é outra: seja igual. E não é seja igual ao melhor, sabe? É seja igual a média, seja medíocre – queira sempre mais, compre sem pensar, não aceite sua aparência normal, pense como a maioria. “Não ofenda os outros com lições de moral sobre ser melhor!” Mas existe melhor, sim. Quando existe o que menos prejudica, este é melhor. Hoje em dia o errado está certo. O politicamente incorreto é um nome que ganha admiração pela ignorância da maioria em relação ao que é política. Preconceito não tem graça e só quem se acha acima do bem e do mal pode julgar menor o sofrimento alheio. Liberdade de expressão não significa liberdade de ofensa e agressão. Ecologistas ganham cada vez mais apelidos pejorativos por defenderem o lar que deveria ser de todos, pacifistas são agredidos para que tenham medo de defender em público sua não reação à violência, cientistas são cada vez mais raros por se dedicarem ao conhecimento, mulheres são mortas impunemente para que não possam influenciar. Depois que cresci, querem me ensinar que preciso ser estúpida para ser aceita. Ainda bem, apesar de tudo, ainda não me acho tão estúpida.
Gentileza, bondade, cordialidade, humildade para aprender- sempre há mais, há muito mais do que poderíamos saber ainda que dedicássemos a vida toda. E, ainda assim, não é preciso tanto. É preciso apenas que cada um seja mais capaz de trocar de lugar com o outro e perceber que é frágil a diferença que nos separa.
A chuva não molha apenas um tipo de gente, o Sol clareia o dia de todo mundo que está vivo… Quando há dor, não importa em quem seja ou qual meio haja (ou não) para resolver, dói igual.
Juventude conservadora e retrógrada
Espera-se que a juventude seja uma esperança para o futuro, que traga mudanças e ajude a evoluir a sociedade. Isso significa questionar o que é estabelecido e que pode limitar sua experiência de vida: família, religião, sociedade, etc. Geralmente jovens questionam tudo, talvez com pouca autocrítica, mas hoje em dia a coisa está mudando, alguns jovens estão concordando com o estabelecido.
Essa juventude foi moldada pelo medo, principalmente esses que se dizem conservadores. Pois é da natureza humana experimentar para se desenvolver. Jovens que lutam contra o direito de todos viverem as próprias experiências são uma antítese da juventude. Experimentar sexo, drogas e rock and roll faz o mundo evoluir e a velhice ser pouco amarga por contar com boas memórias. Medo do outro, medo de se tornar o outro, medo do inferno. Só o medo explica tamanha contradição que é a juventude estar castrando seu próprio potencial com as idéias de gente que já foi. O maior perigo desses caras é que, por princípio e ideal, querem dominar a vida alheia. Estão muito preocupados em saber se você faz sexo, usa alguma substância que não foi comprada diretamente de indústrias farmacêuticas, tenta escapar do trabalho para viver e se pensa diferente deles. Não querem saber se você precisa de alguma coisa, não acham válido dar a mão – a menos que seja pra te empurrar e “ajudar o mais forte a sobreviver”. Esse é o argumento de muitos desses caras…
Creio que a luta pela igualdade de liberdade é causa da gente desde que a sociedade foi estabelecida. Assim como sempre existiu um speed porco pra desejar e perseguir o poder para fazer valer o que achava ser melhor para si e para os seus, sempre existiram pessoas fraternas que enxergam no outro um aliado, não um oponente. Essas pessoas são os heróis que, mesmo errando, tentaram salvar os seus irmãos da opressão. E onde existe autoridade, existe opressão. Nossa sociedade é cheia de autoridades, podem crer! Personalidades, celebridades, autoridades. É uma escala de babaquice sem fim, ignorando o que é de conhecimento geral: a maioria desse país é pobre e/ou ignorante. Pois tem também gente que só tem dinheiro, mais nada na cabeça ou no coração. Deixam a vida levar pra onde qualquer problema alheio não incomode.
Alistamento militar obrigatório, aborto, drogas, sexualidade são do interesse não apenas do jovem, mas de toda a sociedade. Espera-se do sangue novo a renovação, mas o medo impede esses novos caretas – que eu realmente considero geração perdida – de mudar o que existe para melhor. Respeito se conquista, não se impõe. Esses novos babacas nunca conheceram uma aldeia indígena de perto, uma favela por dentro, os bastidores da política e da salsicha. São repetidores de discursos de medo, onde o outro é uma ameaça e deve ser combatido. Até quando, Brasil? Esse país (e esse mundo e todo o universo) não pode aceitar numa boa que essa geração de filhinhos de mamãe se coloque contra a luta primordial de nossa evolução: o respeito pela liberdade de todos.
Até tempo atrás eu me desesperava achando que não havia solução, sabe? Que o mundo estava fadado à um remake estilo ‘Idade Mérdia’, que o discurso dos cagões que se apavoram feito galinhas (desculpem, galinhas!) diante do outro estava dominando o mundo… Não é bem por aí, apesar do que querem fazer parecer. Assim como na Idade Média os reis e a igreja dominavam o pensamento da sociedade, hoje em dia temos reis da mídia e outras indústrias, além de várias igrejas e derivados que querem dizer como as pessoas devem viver para serem percebidas. No fundo, é só um desesperado “continue pagando” em vários aspectos, sabe? Continue pagando o pato se não for capaz de abrir sua consciência para a possibilidade de renovação. O estabelecido por tantos séculos de conservadorismo em nossa sociedade te exclui caso você não esteja sempre do lado mais forte.
Passar pra frente
São campanhas vazias essas que as pessoas fazem apenas replicando conteúdo. Não é preciso ir às ruas e fazer panelaço, mas também é o cúmulo que o indivíduo nem ao menos pense sobre o que está concordando ao clicar em ‘compartilhar’ (gostar, retuitar, encaminhar, whatever…). O tio gugol está aí, bem na cara e, geralmente, também na barra de ferramentas do navegador. Não é preciso nem abrir uma nova aba ou janela, é só copiar o conteúdo de qualquer assunto ali e se maravilhar com ‘informação’ de mais de uma fonte. E, uma dica bacana: leia os comentários e evite sites que não permitem ao leitor questionar ou manifestar-se quanto ao conteúdo. Cagar regra não é legal e estou fazendo isso agora mesmo, mas é pelo bem do povo e felicidade geral da nação. Em tempos de involução causada pelo crescimento do pensamento religioso (que cresce junto com a ignorância, podem crer) estamos diante de barbaridades que pregam intolerância, desrespeito com as liberdades individuais e futilidade, muita futilidade sobre gente medíocre para evitar que as pessoas usem a web para adquirir o temido conhecimento.
Como esse movimento Gota d’Água, cheio de artistas com discurso contra a construção da usina de Belo Monte. Fosse outro governo, leia-se governo tucano, e estariam defendendo a necessidade de geração de mais energia. Campanhas religiosas em redes sociais contra o aborto, piadas fáceis com estereótipos e preconceitos, indicações de que “essa pessoa” tem a mesma velha opinião formada sobre tudo – formada e moldada sem que se perceba. Agora pouco se discute sobre a divisão do Pará, que é iminente, jogaram pro povo escolher sem maiores informações sobre quais serão os possíveis resultados e impactos. Talvez, em breve nenhum Estado possa ser maior que o Rio Grande do Norte. Separatismo rulez, união não. Políticos mais caros do mundo fazem questão de mandar matar quem ouse ameaçar essa dinâmica de ignorância, apatia e incompetência para ELEGER coisa melhor, pois vivemos numa democracia (sic!), neam?
A Índia subsidiou tablets para estudantes, fazendo com que a população rural tenha finalmente acesso ao que antes só era possível nas grandes cidades: informação. Aqui os impostos fazem tudo tão caro que é preciso ir ao Paraguai para comprar bugiganga (que agora tem o nome chique de gadget), pirataria domina o mercado pois há demanda, são poucos os que podem pagar o preço de ‘originais’ absurdamente inflacionados pela tributação do nosso governo. E esses tributos, taxas, impostos, vias, etc, etc, etc, burocracias sem fim para manter a máquina grande e cara e difícil de ser fiscalizada são usados em nada de retorno palpável para a sociedade. Basta andar de carro pela maior e mais rica cidade do Brasil para ver como ela é feia, mal planejada, mal conservada e com péssima qualidade de vida para seus habitantes, que geralmente são mal educados e desconhecem gentileza. E esta é a cidade mais rica…
Qualquer movimento para mudar o que está estabelecido, ou seja, essa porcaria desigual e inútil que fomenta a ignorância e suas filhas intolerância, violência e impotência será reprimido pela máquina. PM, TV, STF – siglas que precisamos engolir como representações da nossa existência, justificadas pela apatia da maioria sobre o que significam e quais seus deveres para com a sociedade. Quem quer que o povão saiba o que significa a concessão do sinal de televisão no Brasil, né? Não se pode culpar o povo por sua apatia, condicionada pela tríade mídia, (falta de) educação e repressão durante tantas décadas, falta de opção para os que não têm dinheiro para se incluir digitalmente ou pagar por TV a cabo é uma realidade ainda hoje. E na mídia impressa o esquema de distribuição é realmente muito sujo, não tem pra onde fugir nesse mar de estupidez.
Tudo isso acontece agora e tem muito mais, mesmo. Não são tão poucos os que também buscam compartilhar informação, são inúmeros sites, blogs e vlogs que usam a única terra que ainda é de ninguém para tentar combater a imbecilização da web, que é inundada pelas empresas de mídia em busca do público que sempre ignoraram. A interatividade se tornou obrigação para o capitalismo, mas não serve para diminuir desigualdades, apenas para ajudar empresas a lucrarem mais conhecendo melhor seu público alvo. Todo e cada produto custa o seu valor de produção, mais propaganda e mais impostos – pagamos muito caro por tudo e esse dinheiro todo fica na mão de quase ninguém. É preciso que mais gente se disponha a pensar mais antes de comprar, compartilhar opinião que não é realmentre sua e, acima de tudo, concordar. É preciso que mais gente questione, conteste e pesquise antes de concordar.
Um som que adoro, pra variar: Up and away – Good Riddance
Ah, Mulheres…
Ser mulher é muita coisa, quem sou eu pra definir, né? E ser feminista, o que é? Complicado responder isso depois de conhecê-las… Vi pluralidade e brilhantismo, nunca encontrei tanta mulher genial por metro quadrado e fiquei encantada. Nem sabia que eu era tão feminista, nunca fui fã de rótulos, mas feminismo não é uma marca, não é uma religião ou diretriz moral. Feminismo é respeito, pois a idéia que todas defendem é de empatia, como incentivar as pessoas a se colocarem no lugar de outras e a pensar sobre suas atitudes, inclusive em relação à mulher.
Enquanto cresce a voz das mulheres no consumo, nos meios de comunicação e na política, também vemos aumentar os discursos utilizando-se do anonimato da web para cometer crimes de racismo, injúria e incitação ao crime. Feministas são alvo de todo tipo de preconceito não só por parte desses criminosos, mas por parte das próprias mulheres que não enxergam a opressão sexista. Mas em vez de se preocuparem com trolls, estão preocupadas com regulamentação da comunicação, assunto urgente, deturpado e ignorado pela grande mídia; querem que o Estado cumpra seu papel laico e faça respeitar a própria Constituição, que o professor seja respeitado e valorizado pela sociedade.
Enfim, são muitas as discussões e idéias que me inspiram. Feminismo é fundamental e deve ser incluído na grade curricular das aulas de História, pois é muito importante que as mulheres saibam que têm muito mais em comum do que nossa cultura machista deixa transparecer. Não somos rivais, somos irmãs. O machismo existe e oprime muitas filhas que não sabem ter proteção da lei, muita mulher engole o machismo, cresce e vive condicionada a acreditar que é incapaz de mudar a realidade. Muitas riem das piadas sexistas que agrupam mulheres como se todas fossem iguais e respondessem da mesma forma, não percebem que o politicamente incorreto geralmente é burro e apela para estereótipos ridículos. (ei, redundante!) Muitas acreditam de verdade em revistas que divulgam ‘pesquisas’ sobre os reais “desejos femininos”, de que mulheres se sentem mais realizadas com a ‘santa trindade’ dona de casa-esposa-mãe em pleno século vinte e um.
É difícil não se revoltar por ser a única chata em tanto espaço, mas no I Encontro das Blogueiras Feministas encontrei várias outras tão chatas quanto eu. Primeiramente, foi uma lição de vida. Mulheres tão admiráveis e tão próximas, tão abertas ao encontro, tão inteligentes que senti orgulho de fazer parte, sabe? Eu, que achava que era melhor ser homem nesse mundo tão injusto, senti que é possível ser mulher e ser realmente forte se formos mulheres unidas. Foi bonito descobrir que sou feminista e que isso é bom não só pra mim, mas para meus filhos e para o mundo!
Música, faz tempo… Eletricityscape – The Strokes
Ocupar
Talvez seja um momento de autoafirmação da humanidade, pessoas se dividem entre os otimistas e os pessimistas, mas todos são humanos e agem de acordo. Não sei diagnosticar as palavras, não sei expressar o que sinto sobre o que se passa… É muita coisa. É uma era de informação onde há pouca curiosidade. Muita futilidade de entretenimento tenta se justificar pela vida estressante dos dias atuais, como se a burrice fosse um alívio pro cérebro, como se o estresse não fosse, também, fruto de toda a ignorância. Sinto que greves poderiam acontecer não só nos Correios ou nos bancos, mas em todas as categorias que não contam com estabilidade suficiente para se manifestarem – isso faria bastante barulho. Mas está difícil achar consenso, união é uma utopia que depende do respeito, que muitas vezes é confundido com silêncio ou aprovação. Ainda há muita religião no pensamento das pessoas, elas ainda precisam de mitos e/ou heróis para seguirem, não sabem o que significa livre-arbítrio, não amam as outras como a si próprias, não se reconhecem na imagem e semelhança de algo melhor, não conseguem ler as letras miúdas, apenas querem a salvação. Ter fé sem pé nem cabeça, basta aparecer o herói esperto certo.
Apesar da desconfiança, a esperança é inevitável. É legal ver tudo isso, desde a ‘Primavera Árabe’ até a recente ocupação de Wall Street e os protestos contra corrupção no Brasil. É, tipo, WOW… Era o que eu esperava da internet desde que isso começou, o poder de mobilizar a ‘rede’. De que adianta uma rede que não se pode balançar, né? No Brasil isso faz todo sentido… Balançar estruturas de Sarney, Magalhães, Maluf, Calheiros, Roriz, Arruda, Bolsonaro e de todos que não são famosos só pelo sobrenome difamado, mas que precisam ter seus nomes e feitos chacoalhados pela razão de quem lhes emprestou não apenas confiança, mas dinheiro, MUITO DINHEIROOO!!! Ver isso acontecer seria a glória, ver o povo deixar de ser burro e conversar com o povo que não acessa a internet, o povo que só tem a televisão para se desinformar e que, na verdade, é o povo que elege nesse país de ignorantes. Não adianta latir litros num fórum onde todo mundo tem, pelo menos, o mesmo interesse, e não falar com um estranho na rua sobre a real situação do país fora do futebor. Fora da internet não vejo o povo engajado em nada além de sobreviver.
Quem sabe seja o tempo de ocupar mentes com pensamentos grandiosos, de se abrir para conhecer mais de verdade, de reconhecer que só dentro de casa ninguém conhece nada. É bonito ver esse tempo, espero que essa Primavera seja o desabrochar de alguma evolução positiva. Acredito que só o amor constrói, que podemos sempre fazer melhor e que a esperança é a última que morre, todos os clichês bonitinhos de quem tem fé na vida, mas não fé sem pé nem cabeça.
E não consigo pensar em música, só em dança desde que assisti ao ótimo documentário sobre Dzi Croquettes. Essa semana voltei a me mexer. Vale a pena buscar e assistir, dá orgulho e tristeza de ser brasileiro e saber que nunca vão exibir isso num canal aberto de audiência, muito menos canais que têm a religião como cliente ou proprietária…
Segundo filho
O drama com o primeiro filho é bem maior… Quem é filho único deve aguentar uma barra pesada pelo medo dos pais. Hoje o Aquiles fez seu primeiro treino de paraquedista, do carrinho para o chão. Diferente de quando isso aconteceu com o Américo, tudo o que eu fiz foi pegá-lo no colo e dar um pedaço de pão, o choro parou na hora. Claro que estou observando e fiquei preocupada, porém bem menos desesperada. A menor possibilidade de perder qualquer um deles é – e suspeito que sempre será – o maior medo da minha vida, mas já não sou marinheira de primeira viagem, sei que um tombo geralmente não é fatal de uma altura pequena e sei que com meio ano de vida e mais de oito quilos de muita esperteza, ele vai ficar bem.
Todo tempo
Ter todo o tempo para estar ocupada com quase tudo e achar que não fez nada. Vai explicar a tarefa de casa pra dona, fazer gelatina, cabana, pintura e não ter tempo para ler um livro. Há tempo quando vão dormir, acostumei cedo para ter tempo pra fazer alguma coizzzz zzzz… zzz…
É, qualquer tempo que sobra é desperdiçado em descanso, ainda que involuntário. Padecer no paraíso é o clichê, mas é… Apesar de saber que tudo passa logo, tudo passará, o cadáver faz trinta esse ano e é muito foda conhecer o que é um joelho falhar. Não que eu vá usar pra muita coisa, mas eles não podem falhar quando meus preciosos estão no colo, que susto… Escrever, nem pensar. Ele acordou e estas linhas são escritas com pressa, sem pensar, só pra registrar que não tem jeito. É possível procrastinar qualquer trabalho, mas é preciso estar mais do que disposta para sempre atender ao exigente e constante chamado deles.
E está tocando Under pressure – Queen
Preparação
Admito que o medo é tema corriqueiro em meus pensamentos, a surpresa é que não mais apenas por ele que sou motivada. Pois ter medo é freqüente não só em idéia, é na vida, na cultura e coisa e tals… Depois das merdas que acontecem não adianta pensar. Qualquer pessoa com inteligência média é capaz de perceber o quanto a maldade pode ser mantida velada, o quanto a segurança pode estar enganada. Me pergunto quantas pessoas são mantidas em bunkers de países devastados por guerras antigas e que hoje são ricos… A polícia pode encontrar depois de anos, prender o maldito bandido mas, e daí? Os anos que a pessoa prisioneira perdeu, a vida condenada por lembranças e pensamentos ruins, nada compensará. Câmeras que filmam babás agressoras… O que penso é cruel, mas fato é que eu avisaria qualquer pessoa que trabalhe pra mim sob vigilância que ela está sendo gravada, depois de bater em meus filhos será tarde demais. É melhor prevenir do que remediar… Minha surpresa em relação ao medo é não encará-lo mais de frente, tenho mais a perder. Tenho tudo a perder… Questões sobre ter ou não ter não funcionam quando realmente se tem, talvez só quem tenha possa realmente entender…
Ano que vem está chegando e, se tudo mudar, o fim de nossa era vier e se nada houver, será bom ter aprendido a fazer mais coisas práticas como costurar e cultivar, caso a gente sobreviva. Penso em fazer também uns intrumentos musicais que estão num livro velho que achei. Livros, eles não se acabarão com o fim da energia elétrica, talvez a sua produção… Sorte de quem conseguir (primeiro achar, né) imprimir e manter o que há de útil no google… É bem bacana fazer coisas e acabo dando muitos presentes por não ter tanto espaço. Nesse findi tem dois aniversários de criança para ir e os presentes serão um robô e um vampiro feitos por mim, é muito legal saber que não haverá presente igual. Como também é muito legal a salada que cresce na varanda e vou colher com meu filho para realizar sua fantasia de protagonizar a maldita propaganda de danone que vende marketing ecológico para justificar o preço absurdo de seu produto de sempre. Deixo ele fazer essas coisas, sei lá se amanhã precisarei ensinar coisas mais tristes que o nascimento de uma salada. Sei que nunca fui assim, tão medrosa…
Penso que há muito futuro pela minha frente, não vejo de outra maneira, não consigo. Ter meus filhos nos braços dá superpoderes e o maior medo da vida. Sou mais do que posso e faço até o impossível por eles… No livro que achei tem até como fazer um banjo.
Música, para celebrar tempos de paz – que não acredito do fundo do coração serem duradouros – tão inspiradores: The Subways – I want to hear what you have got to say
Santa ansiedade
É só de esperança que vive o coração de uma mãe nos dias de hoje… Não que as outras pessoas sintam menos… Ah, é sim, mães são mais sentimentais mesmo. Mas o medo é constante, minha gente. O medo do futuro… Pois somos bombardeados toda hora com notícias sobre violência, desastre, maldade. Além de fatos, ainda fazem documentários sobre o que poderia acontecer se uma bomba nuclear caísse, como as construções da humanidade pereceriam após o seu fim, quantas doenças podem ter sido criadas propositalmente em laboratórios para que indústrias farmacêuticas vendessem drogas… Enfim, cultura contemporânea será conhecida nos livros de História (se houver amanhã!) como a Idade do Pavor.
Estamos condenados a repetir os mesmos erros pois algo que o ser humano aprendeu (talvez com os felinos) é a enterrar a própria merda e fazer cara de paisagem. Não se fala de um erro para comentar o que seria certo, evitar pânico e sim para apavorar possíveis vítimas no caso de o mesmo erro ser – e provavelmente será – cometido. Então esconda as crianças, a sua mulher e o seu marido… O medo é ridículo, material pra piada mesmo. Trocamos a liberdade por uma falsa segurança, quem nos ameaça é quem pagamos para nos proteger. E pagamos caro. Vivemos com medo e abismados e impotentes diante de tanto absurdo. Depois da notícia de que um assassino e estuprador de bebês fugiu da cadeia vem economista tecer comentário sobre as cotações da bolsa de valores, que quase ninguém sabe pra que serve, só se sabe que é coisa de quem tem dinheiro.
E meus brinquedos vão saindo, quase um por dia, enquanto tento não saber o que acontece lá fora, infelizmente é inevitável ser contaminada pela moda da Idade do Pavor. Tenho medo do futuro, pois não me pertence mais. E preciso de mais espaço para colocar tanto brinquedo…
E por que não?
Ser jornalista e não poder sair de casa significa ficar dura e meio triste com tal condição, ao ponto de arrumar o que fazer em casa e ser mal remunerada e resolver criar hobbies que amigos sugerem tornarem-se fonte de renda. Então me perguntei, por que não? Nem sabia que tinha esse talento pra fazer brinquedos, mas o resultado ficou muito legal e resolvi aceitar encomendas. Então, os bichinhos que fiz pros meus filhotes podem ser vistos e comprados através do site Elo 7:
Aí, quem é fã compra, viu? Quem não é fã compra também, só pra rasgar e estragar!
Escolhas
‘Cada escolha é uma renúncia’ – cresci ouvindo essa máxima, nunca pensava nela profundamente até que, um dia, cresci ou passei a crer que me dizer adolescente não era apropriado. Escolhi uma vida que me enche de medo, sou cheia de responsabilidades e ainda fico pensando, o que só faz piorar a agonia de viver. Porque a ignorância é realmente a chave para a felicidade mas, uma vez infectado pelo vírus da curiosidade, nunca mais o sossego é pleno. Hoje tenho dois anjos sob minhas asas, mas não sei que homens eles serão nesse mundo louco, onde a tela é imposta como espelho de uma realidade maquiavélica promissora e inescapável. Senti o mesmo pânico quando meu primeiro filho nasceu, o medo do amanhã, o grande medo pavor do revés… Como se eu não fosse digna de tanta coisa…Vem a paranóia de voltar a ser o que era, até alta da internação consegui antecipar por já estar em pé horas depois da cirurgia, para me sentir forte como sempre fui – preparada para proteger meus tesouros com tudo o que tenho. Mais de um mês se foi, agora é a real mesmo, agora é que cai a ficha de que tudo mudou, de que eu trouxe um novo ser humano à vida e sou a maior responsável pelo seu crescimento. Escolhi isso por ser a coisa mais emocionante que eu poderia estar fazendo. Aventura nenhuma supera o frio na barriga de saber-se responsável – em todos os aspectos possíveis – por outro ser humano… A expectativa é tão grande que chega a doer, a vontade de ver um minuto do futuro pra ter certeza de que vai dar tudo certo, a certeza de que crescerão bem e bons. Agora só a certeza de que nada será como antes, pelo menos não aqui. Apesar de toda a fragilidade dessa calmaria, a esperança de que o tempo pare e nada mude nunca acaba.
Agradeço muito e sempre pela sorte que tenho, ainda que sou tão distraída e impressionável. Paranóica, confusa, cansada e muito satisfeita – talvez até empanturrada, ou pode ser apenas um mecanismo de defesa acionado pelo medo de perder. O amor que escolhi ainda é paixão que aumenta, planejamos fugir de casa como velhinhos rebeldes quando os meninos forem grandes para desejarem distância dos pais, planejamos nossa cerimônia oficial de casamento e já decidimos que o Arctic Monkeys não vão tocar 505 na nossa festa porque eles não tocam essa ao vivo tão bem quanto em estúdio, planejamos ter uma casa no campo para plantar nossos livros e discos e a utopia de viver em paz. Nossa sintonia é tão grande que dividimos pensamentos, e cresce… Escolhi aceitar esse amor, ainda que não me considere digna de tanta paixão.
Renunciei, talvez por enquanto, ao estilo aventureiro de me jogar no perigo. Ter a cara sempre cheia de coragem é o que fez minha vida tão interessante até aqui, mas passou. Hoje considero válido ter uma arma, desconfio das pessoas, observo com empatia em vez de simpatia, o perigo não me atrai porque vejo um mundo muito cruel para quem é indefeso. Os fortes destroem os fracos em vez de protegê-los, a vida é realmente madrasta e nem sempre, nem de tudo, vou poder proteger meus filhotes, mas acho que a agonia faz parte da maternidade. É lindo apesar de tanto medo. É emocionante apesar da rotina inevitável. É fundamental no meu mundo desabitado ter esses dois reis para governar os monstros que criei antes de eles existirem – meus pequenos heróis que me salvam de mim.
Agora há também o medo de voltar ao mundo adulto, ser jornalista ou lecionar – ou fazer algo diferente para aprender alguma coisa nova. Escrever sobre temas que esqueço assim que tento formular o primeiro parágrafo, chover no molhado das atualidades absurdas, expressar meu horror com tudo o que não deveria ser, manchar o branco com meus pensamentos impuros… Queria sentir liberdade para não escrever mas é como se estivesse traindo a História que me prometi registrar – a História da minha vida. Quero agradecer a mim mesma por todas as escolhas que fiz por mim – e à minha mãe por tudo o que ela fez também, hoje eu sei…
Música, então: The way you wear your head – Nada Surf
Crianças indigo?
As crianças e adolescentes não mudaram, ainda são projetos de gente, presunçosos e que precisam testar limites para aprenderem a ultrapassá-los com segurança…
Agora, os pais, estes sim mudaram muito. Antes, lá no antigamente, o pai trabalhava e a mãe ficava em casa, não necessariamente proporcionando atividades lúdicas e estimulantes para seus filhos, mas geralmente ralando para limpar a casa e, nos momentos de folga, ler uma revista ou fofocar com a vizinha. As crianças tinham a liberdade da rua, seguiam juntas para a escola e, geralmente, sem nenhum adulto por perto, brincavam mais longe da vigilância. Não havia culpa por parte de mãe ou pai pelo tempo que não passavam com seus filhos, pois viviam sob o mesmo teto e isso bastava.
Hoje em dia, a sociedade de consumo prega tanto perfeccionismo e exigência em relação às crianças que os pais sentem-se pressionados. As opções para os pequenos são mais variadas, melhores e mais caras do que para os adultos – mas quem trabalha e paga por tudo?? Empresas já planejam serviços que incluem as crianças por saberem que é um mercado infalível, nenhum pai nega o conforto que pode oferecer aos seus filhos – ainda que isso possa transformá-los em folgados inúteis.
Quando eu era pequena, e isso nem faz tantas décadas assim, havia menos opções para criança e raramente podíamos escolher. Mas me aproveitei muito da culpa que mi madre sentia por trabalhar fora e não ser o tipo de mulher que vive em função da casa e dos filhos, muitas vezes pressionei pelo que queria, consegui e me tornei pior, mais exigente, ingrata que só. Só tive alguma idéia do que minha mãe sentia quando comecei a trabalhar e depois saí de casa e precisei me sustentar. Quando tive o Américo passei a questionar o porquê de eu ter sido considerada uma criança tão terrível, já que ele é tão bonzinho. Acredito que ele é bonzinho porque eu não sou boazinha, sou bem diferente da minha mãe que sempre se preocupava com a opinião alheia sobre suas escolhas, me sinto mais livre do que ela em relação ao que é considerado aceitável pela sociedade.
Concordo que vivemos numa época em que as crianças são mais espertas, também fomos mais espertos que nossos pais quando eles eram pequenos, isso se chama evolução. Mas não devemos acreditar que criança e adolescente é diferente hoje, não são. São potencialmente mais inteligentes que os pais, mas estes são potencialmente incapazes de determinar o futuro de seus filhos por mais que tentem. É importante ser presente e estimular seus filhos, mas talvez seja mais importante cuidar bem da própria vida e sentir-se estimulado e feliz com isso, um exemplo vale mais do que mil palavras. Culpa não pode ser exemplo de sucesso…
Música que eu adorava quando criança: Aquarela – Toquinho
Se tudo der certo…
Se tudo der certo o mundo não vai acabar em 2012 e não acabaremos com ele até 2013, as pessoas serão melhores – ainda que por sentirem-se vigiadas ou por fazerem questão de serem reconhecidas (aparecidas) – mas a demagogia talvez transforme em realidade o comportamento interpretado. Ainda que fingido, talvez o exemplo molde uma nova atitude social. Se tudo der certo, a informação será reconhecida como o bem mais valioso e também o mais compartilhado da História da humanidade, finalmente evoluiremos para uma raça superior – a realmente humana.
É que parece que o tempo está mudando, que uma nova era pode estar começando e pode transformar a maneira retrógrada de (c0n)vivermos. Ter é bom, mas conhecer é mais importante, só tem ou quer ter aquele que conhece e é isso que vejo mover o comportamento numa direção menos pretensiosa e mais consciente de sua importância como transmissor de valores. Revolta pela apatia voluntária dos que acreditam que nada é possível, dos que falsamente cansaram ou que se renderam antes de lutar. Se tudo der certo, não será mais possível esconder as curas descobertas, comeremos menos e com menos veneno, teremos oportunidade de ajudar a natureza e desfrutá-la sem medo de que tudo acabe amanhã, poderemos usar toda a ciência que desenvolvemos para transformar o mundo num lugar melhor para mais gente, a verdade que poucos sabem é que tem pra todos viverem muito bem.
Se tudo der certo, a religião será suplantada pela inteligência, as pessoas aprenderão que questionar e saber é mais gratificante do que obedecer fielmente. A tolerância será uma virtude valorizada pela maioria, reconheceremos que a singularidade existe, que somos todos únicos e que isso nos torna iguais. O vulnerável será protegido e não extinto pelo mais forte…
Se tudo der certo, vou parar de escrever tanta besteira sobre o que acontece e vou escrever sobre o que acontece com a minha besteira… Realidade não existe, cada um enxerga só o que pode. Não tem graça não ver graça, nem que seja inventada, ainda que seja só minha graça… E, se tudo der certo, vou voltar.
Música pra sexta meio melancólica… O Homem – Raul Seixas







