Lia Drumond

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O Bonito Esculápio

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Vou contar uma história que poderia ser sombria se eu desse ouvido aos ignorantes que disseminam pelo mundo as crendices, os preconceitos e as superstições. Era uma sexta-feira 13. E ele entra pela porta da sala com um presente no bolso da jaqueta. Preto, feio de doer. Orelhas enormes, magrelo, cheio de remelas… Eu me apaixonei. Meu primeiro gato preto, ganhado numa sexta-feira 13. Foi pura sorte!

Como sempre A-D-O-R-E-I nomes diferentes, batizei esse bichano de Esculápio. Claro que ele não gostou do nome e não atendia nem por decreto. Cresceu e escolheu o próprio nome: ele só olhava quando chamávamos de BONITO! E ficou, o Bonito Esculápio. Cresceu e ficou lindo, um pretão com estilo de pantera. Era o típico vira-lata, vivia na gandaia noturna, sempre voltava com um teco a menos da ponta da orelha, trazia amigos pro nosso quintal, caçava os passarinhos filhotinhos que caíam das árvores vizinhas, comia insetos nojentos, marcava território… Era um típico gato saudável.

Preferia minha mãe. Talvez porque o carinho dela era mais calmo, talvez por ela não mordê-lo nem apertá-lo como eu fazia. Ele amava a minha mãe. E aí de quem estivesse perto dela quando ela gritava ?Ai!?. O Bonito descia o dente sem dó. E ele era cheio de truques que enchiam nosso cotidiano de risadas. Tinha mania de se esconder num pequeno jardim, que ficava ao lado do corredor de entrada, e quando alguém passava por ali de noite, ele pulava nas pernas do infeliz para dar um susto. E minha tia-avó, idosa, religiosa e fã de passarinhos; era sua vítima favorita. Era sádico, porém irresistível assistir tal cena.

E ele seguiu vivendo uma vida muito boa, apesar dos arranhões. Até que um dia, uma enorme tragédia aconteceu. Digo enorme por que perto dele, ela era muito grande mesmo. Minha tia, que é gorda, pisou, sem querer, na pata dianteira dele. Esmagou. Nessa época eu estava casada e não morava com minha mãe. Apesar de ter tentado levá-lo para meu novo lar, ele preferiu ficar com minha mãe e eu o deixei, então, na casa dela. Mas o machucado o trouxe para meus cuidados novamente. Minha mãe não tinha tempo nem frieza para cuidar da pata do bichano. Eu cuidava. Ouvia-o chorar de dor a cada sessão de banhos para desinchar o ferimento.

Cuidei, levava duas vezes ao dia na veterinária, medicava e tentava fazer com que ele se tornasse amigo dos gatos dessa nova casa: o Capitão e o Morango. Não tinha jeito. O Bonitão era um negão invocado e não queria saber de dividir nada. Ele estava acostumado a ser O Gato da casa. E lá ele não era o dono do território. Sentia-se assustado e irritado. Estava com uma atadura na pata e faltavam apenas dois dias para tirá-la e ele voltar para a casa de minha mãe, sua casa. Desapareceu. Acho que devia estar forte o suficiente, desapareceu. Não voltou pra casa da minha mãe (a distância não era tão grande), não voltou para a minha casa. Apesar de vários cartazes oferecendo recompensa pelo gato, quem nota um gato preto no meio da rua?

Quando penso no Bonito, acredito que ele se transformou em noite. Seus pelos viraram brisas úmidas que carregam cheiro de Damas da Noite, seu olhar se transformou em luz de lua cheia, sua agilidade se transformou na inconstância que o desconhecido noturno planta no nosso coração. Ele ainda tem muitas vidas pra viver…

Written by Lia Drumond

abril 24, 2006 às 14:12

Publicado em Bichanos

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