Lia Drumond

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Predadoras

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Predadoras

No metrô. E aquela sensação estava de volta. Sentia medo. Sempre que estava rodeada de gente, se sentia diferente de todo mundo. E todo mundo se sente diferente dos outros. Os outros. Sempre eles, nunca nós. Somos outros pra eles assim como eles são pra nós. Mas sabia que era diferente de verdade

Embaixo da sua pele não havia carne e osso. Não havia circulação de sangue para aquecer seu corpo, não havia raíz no seu cabelo. Era apenas aparentemente comum, apenas aparentemente. E ninguém percebia tanta diferença. As pessoas estão tão indiferentes que mesmo quando encostavam em sua pele gelada, não percebiam que algo ali não era natural. E ela sabia que essa indiferença lhe garantia segurança. Ninguém perceberia até que tudo estivesse acabado.

Esperava alguém. Ou algo. E, sentada no fundo do vagão, olhava pra frente e enxergava cada pessoa, tudo o que acontecia. Uma mãe com dois filhos, um casal de velhos, jovens, homens, mulheres, gordos, altos, feios… Cada um era diferente do outro. Singularidade. Ela já tinha visto um par de gêmeos uma vez. A única vez em que viu duas pessoas bem parecidas, mas não eram tão iguais.

Indiferença seria a arma que os protegeriam. Enquanto dominavam cada canto da cidade contavam com a indiferença que os seres humanos cultivavam pelo próximo para manterem suas identidades em segredo. Não estavam aqui para domininar o mundo, nem para escravizar a raça humana. Divertiam-se com os filmes sobre alienígenas feitos pelos terráqueos. Sempre a imaginação era mais criativa que as atitudes. Se o ET não quer devorar humanos, é amigo. Se quer, leva tiro. Primitivo, por isso mesmo lhes parecia tão engraçado.

Ela era uma peça chave para a evolução deles. Ou delas. Sua raça tinha evoluído para a extinção do sexo oposto. Nem se consideravam mais fêmeas. Por causa de uma doença genética que foi evoluindo e crescendo ao longo dos séculos, os bebês nasciam sem braços e pernas. Eram criaturas estéreis, que apenas pensavam e falavam. Eram inúteis para aquela sociedade, eram aberrações que precisavam ser evitadas. Muitas pesquisas e experiências foram feitas para que os bebês nascessem perfeitos, com 4 braços, 2 pernas e um rabo.

No início era uma espécie de clonagem, que deu origem aos mesmos seres das gerações anteriores, depois vieram as alterações genéticas que lhes conferiam poder de regeneração. À partir daí evoluíram para a reprodução assexuada por bipartição. Só que apenas as fêmeas se reproduziam por bipartição. Os machos ainda precisariam de uma fêmea disposta a ceder-lhe o corpo para gerar um filho. E elas preferiam a eternidade. Cada uma se transformava em duas novas. E através delas, se continuavam… As duas herdavam não apenas a genética, mas as memórias. E assim os machos desapareceram. Sua espécie era a repetição de gerações e gerações. Depois de muitos séculos renascendo, muitas não queriam mais viver.

E quando resolveram gerar novas vidas, cessar a própria continuidade, não havia nenhum macho no planeta. Não haviam sequer guardado esperma para o caso de no futuro alguém resolver gerar um novo ser. A ganância pela eternidade tinha cegado aquela espécie. E agora teriam que descobrir uma maneira de garantir reprodução sexuada. Tinham que achar machos compatíveis. E encontraram na Terra.

Apesar de humanos possuírem apenas 2 braços e nenhum rabo, a primeira tentativa de copular com um macho e gerar um novo Grueo foi um sucesso. O primeiro bebê Grueo nascido em séculos era uma fêmea, infelizmente. Mas possuia todas as características de sua raça. Inclusive a capacidade de iludir a visão humana. Ela estava lá, sentada no Metrô. Observando como cada pessoa era diferente e como essa singularidade significa a chave da evolução. Lição que seu povo aprendeu na prática…

Written by Lia Drumond

agosto 10, 2006 às 14:56

Publicado em Contos

Uma resposta

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  1. Muito bom… observação é tudo

    agosto 18, 2006 at 22:27


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