Lia Drumond

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Corte o pescoço com o punhal e beba o sangue no cálice

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Ele estava com muito frio, chovia e os ventos faziam um barulho triste na rua vazia. Ele estava com um casaco grosso e calças jeans, mas o frio parecia entrar nos ossos. Apesar de estar correndo, o frio o alcançava sempre que parava. Sua roupa estava suja de sangue e terra. Se escondeu embaixo de uma escultura que enfeita o meio da avenida. Carros passavam, para a maioria ele devia apenas se parecer com mais um mendigo bêbado que foge do frio. Ele tenta se lembrar do que aconteceu:

– Agora você mata cortando o pescoço com esse punhal e bebe o sangue que recolher nesse cálice.

Ela disse isso como se fosse algo natural nos dias de hoje. Eles tinham acabado de fazer amor num ritual muito louco, perto da fogueira que acenderam com madeira de carvalho e da mesa de pedra que montaram para as oferendas. Ele não sabia o que estava fazendo. Apenas se deixou levar pelas idéias dela. Tão fascinante, tão sexy, tão diferente. Encantadora. Enfeitiçadora.

Se perguntava se era isso. Será que ela o enfeitiçou e obrigou a fazer o que ela queria? Será que foi hipnose? Seu ceticismo o impedia de acreditar no que aconteceu. Tinha de ter uma explicação mais racional para aquela tempestade gelada. Onde ele estava?

Certo dia esbarrou numa moça que andava na calçada. As coisas dela caíram no chão e ele se apaixonou quando a olhou nos olhos. Amor a primeira vista, alta dosagem de feromônios, secura. Nunca soube explicar o que lhe encantava naquela moça pequena, de cabelos e olhos negros e pele muito branca. Ela falava pouco, gostava de cães e os cães pareciam adorá-la, até os mais ferozes.

Sua memória o confundia. Desde quando ele a conhecia? Sentia como se sempre a conhecesse e, ao mesmo tempo em que olhava o sangue em suas roupas, esquecia como era seu rosto. Quem era ela? Que sangue era aquele?

Sua memória parecia estar se apagando, ele tentava se lembrar do que fizera antes da tempestade começar, queria entender como havia chegado ali, embaixo daquela escultura urbana. Olhava o sangue em sua roupa, nas suas mãos. Sentia o gosto de ferro na boca, sabia que seu rosto estava sujo de sangue também. Que sangue era aquele? Não lembrava mais de onde viera o sangue.

– O que foi que eu matei? Quem era ela? Qual era mesmo o nome dela? Eu preciso me lembrar… Eu preciso saber o que aconteceu! Por partes, cara! Fica calmo! Primeiro: a gente foi para uma floresta para fazer um ritual… Como a gente chegou na floresta? Quando a gente decidiu ir? Calma! Tá… A gente foi pra floresta. Disso eu lembro. Lembro de estar numa clareira e de uma grande fogueira. Ela disse alguma coisa sobre a madeira de carvalho. Tinha uma caixa e alguma coisa se debatia lá dentro, provavelmente o animal que matei. Que animal era aquele? Não lembro… Lembro de estar gozando profundamente e lembro de ouvir sua voz dizendo para matar com o punhal e beber o sangue com o cálice… O que eu matei? Um porco? Um cachorro? Lembro de estar ajoelhado e com gosto de sangue na boca. Lembro de bater a cabeça na mesa de pedra. E então eu já estava correndo por aqui. Será que eu bati a cabeça com força e ela me trouxe para esse lugar? Por que ela sumiu?

A tempestade aumentava. Chuva gelada, ventos cruéis. Ele queria chegar em sua casa, queria ver sua mãe. Não podia acreditar no que estava acontecendo. A sensação de estar fugindo sem saber quem o persegue. A sensação de algo errado. Ela o fez matar e beber o sangue de sua vítima. Ele jamais mataria com as próprias mãos, era muito urbano, abominava violência. Decidiu caminha até sua casa. Enquanto andava pela chuva o sangue era lavado de suas roupas e de seu rosto. Conseguia reconhecer onde estava, não era muito longe de sua casa.

Andava sob a tempestade e as lembranças pareciam desaparecer cada vez mais. Não lembrava mais como era a floresta onde esteve, não lembrava as palavras da pequena e esquisita garota que o tinha deixado de pernas moles, não lembrava de quem era o sangue que escorria de seu corpo para o chão da rua. Apenas sentia que estava sendo perseguido, que alguém o observava, como se houvesse um fantasma em sua sombra. Olhava para trás e não via nada além da neblina que a tempestade causava. Queria chegar em casa. Sentia medo.

Ninguém em sua casa conhecia a moça por quem ele estava tão apaixonado. Ele não falava sobre sua vida particular com os pais, muito menos com a irmã mais nova. Seu pai o viu chegar ao portão, preparou-lhe uma toalha:

– Pensei que sua mãe voltaria com você. Onde está ela?

– Não sei. Estou muito cansado, quero ir para o meu quarto. Por que mamãe voltaria comigo?

– Você telefonou mais cedo e pediu para ela encontrar você e sua namorada. Ela estava feliz por finalmente conhecer a moça!

Ele subiu e esperou sua mãe voltar. Esperou muito, até adormecer. Quando caiu a noite, e a lua cheia apareceu, seu corpo começou a doer, estranhas sensações invadiram seus pensamentos. Ele se tranformou num cão. E saiu para rua. Quando chegou até sua calçada, viu a moça. E descobriu por que os cães a rodeavam. Descobriu que alguns cães não tinham sido sempre cães. E descobriu que sua mãe agora era parte dela, parte de sua imortalidade e encantamento. Ele a seguiria como um cão por toda a eternidade, como os outros que mataram as prórpias mães e beberam seu sangue. Quem era ela? Sua mente canina não era mais capaz de responder. Nem de perguntar…

Written by Lia Drumond

agosto 18, 2006 às 17:43

Publicado em Contos

3 Respostas

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  1. Podre

    Anonymous

    agosto 18, 2006 at 18:24

  2. Muito bom… bem biográfico

    agosto 18, 2006 at 20:02

  3. Puta merda…
    Menina tu tem uns contos muito macabros mais também muito bons, ao menos este tem final!

    Narcotico

    agosto 29, 2006 at 12:10


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