Lia Drumond

É só um blog…

Marcus Negro

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A noite chegou e ele tremeu. Não era a primeira noite em seu corpo tremia todo de pavor. Todos dormiriam e só ele veria mais uma vez sua casa ser tomada por espíritos de prostitutas mortas e horrendas. E era por ele que elas vinham toda noite. Era ele que queriam atormentar. E conseguiam. Ele chorava de pânico, morria de nojo e todos achavam que ele enlouquecia.

Começou logo que se mudaram para aquela casa. Os médicos recomendaram os ares das montanhas para reestabelecer a saúde de seu pai. Como dinheiro não era problema, seu pai comprou a casa no lugar mais alto daquela típica cidade de montanhas. Construídas como chalés, as casas tinham lareiras e telhados muito inclinados. A cor da madeira emprestava às casas um ar de quem já nasceu na floresta. Um riacho nascia perto e o lugar tinha uma vista espetacular dos montes mais baixos e da floresta que rodeava todo o lugar.

Na primeira noite na casa, ele acordou os pais gritando feito louco.

– Tirem elas daqui!!! Socoooorrooo!!! Não sou eu! Não sou eu!
– Calma, meu filho. Você estava sonhando. Foi um pesadelo, calma!
– Não foi pesadelo, mãe! Tinham cinco fantasmas de mulheres, horríveis e podres. Elas sentaram na minha cama e me acordaram. Disseram que eu pagaria pelo que lhes fiz.
– Ah, rapazinho… Nessa sua idade é normal sonhar com mulheres. Agora volte a dormir que foi só um sonho ruim.

E quando sua mãe saiu do quarto, elas voltaram. Ele gritou novamente e a mãe voltou.

– Olha, mãe! Nào está vendo, ali? ? Apontava para um lugar em cima da porta do quarto.
– Não estou vendo nada, filho. O que você vê?
– São duas ali, mãe. Uma com o vestido amarelo imundo e a outra com um vestido vermelho manchado e rasgado! Vê? Elas têm um corte no pescoço e seus rostos estão apodrecendo! Não vê, mãe?
– Meu filho… Não vejo nada ali. Deixe-me ver se está febril. Está normal. Você comeu muita carne antes de dormir? Bebeu alguma coisa?
– Nada mãe. Eu estou bem, mas estou vendo aquilo. Por que a senhora não vê?
– Meu filho, você deve estar cansado. Reze um pouco para que os demônios não lhe atormentem o sono e tente dormir. Boa noite.

E ele fez isso. Enfiou a cabeça debaixo da manta que o aquecia e rezou, rezou muito. Rezou tudo o que sabia até que adormeceu. No dia seguinte não havia qualquer vestígio de que alguém além dele estivera no quarto. Procurou manchas de mãos ou de sapatos pelas paredes onde as horríveis mulheres andaram durante a noite. Não encontrou nada. Tentou esquecer daquilo durante o dia e quando a noite chegou novamente, sua mente já tinha considerado o ocorrido como um simples pesadelo.

Depois que todos adormeceram na casa ele sentiu um peso na cama, perto de suas pernas. Ele não queria abrir os olhos e o pavor da noite anterior lhe tomou os sentidos novamente. Ele resistia em seu travesseiro. Pensava que se elas acreditassem que ele estava dormindo de verdade, o deixariam em paz. Um cheiro podre de terra e carniça entrava pelo seu nariz fazendo seu estômago revirar. Ele não queria abrir os olhos, tentava resistir de qualquer jeito. Pensou em começar a rezar, mas alguma coisa gelada e mole lhe fechou a boca e então ele arregalou os olhos.

Duas mulheres saídas do inferno flutuavam acima dele enquanto duas o prendiam a cama e uma outra lhe calava com as poucas carnes esverdeadas das mãos mórbidas e ossudas. Ele não tinha o que fazer, não tinha como se soltar nem como gritar. Grunhia, gemia e tentava se debater, mas era em vão. Elas o prendiam e o encaravam com sorrisos diabólicos nos lábios roxos e machucados.

– Olá, Marcus Negro. Nós sabíamos que hoje você não escaparia.

Ele olhava para elas com lágrimas de pavor nos olhos. As vozes pareciam ser de todas, como se estivessem falando ao mesmo tempo, apesar de nenhuma ter mexido os lábios. Ele queria dizer que seu nome não era Marcus Negro, que elas estavam enganadas e atormentavam o homem errado. Seu sangue gelou quando as escutou responder seus pensamentos.

– Ah, você é Marcus Negro. Pode não se lembrar nessa vida, mas você é Marcus Negro. E nós teremos nossa vingança. Você matou todas nós aqui, nessa casa. Enterrou nossos corpos na floresta, sem um sepultamento digno. Juramos que quando você voltasse nós lhe atormentaríamos a alma até você morrer na floresta, junto de nossas covas.

Ele nada podia fazer. A força daquelas malditas mulheres era imensa. Ele aguentou as risadas e odores fétidos por toda a noite. Não pregou o olho por um minuto sequer, apenas assistiu ao show de horror das putas mortas. Só quando sua mãe entrou no quarto para acordá-lo é que os espíritos se foram. E a mãe ficou assustada com o estado do filho. Pálido como um fantasma, suando frio, lábios rachados e o corpo todo tremendo como se tivesse sofrendo de uma febre terrível.

– Meu Deus! Que aconteceu com você, menino? Não está com febre, por que está tremendo tanto?

– As..as…
– Fala, meu filho. Que aconteceu? Você não está bem, seu rosto está transformado!
– mu… mu…lheres…. fantasma….
– Você teve pesadelos de novo! Não deve ter dormido o resto da noite… Não posso atormentar seu pai com problemas, você sabe que ele está se recuperando da doença aqui. Nào pode se preocupar. O que você quer que eu faça, filho?

Ele olhou para ela com uma expressão de piedade, como se pedisse para que tivesse clemência. Não sabia o que ela poderia fazer para ajudar. Apenas tentou parecer melhor para preocupá-la menos e sair da cama. Foi para fora da casa e o ar da montanha na manhã ensolarada e fria o fez sentir-se melhor. Passou o dia sonolento. Foi até a igreja e rezou. Pediu proteção aos céus e voltou para casa. Quando a noite estava chegando, ele avisou que dormiria em outro quarto. Sua mãe entendeu e concordou, sem comentar o fato perto do pai.

A noite em outro quarto poderia ser tranquila e sem assombrações. Ele sentia medo, mas também muita esperança de que essa noite as coisas seriam calmas. Estava enganado. Assim que todos adormeceram e ele fechou os olhos, instantaneamente sentiu peso contra seu corpo e o gelo das mãos moribundas calando sua boca. E o ritual começou mais uma vez. Elas não lhe deixavam dormir em paz. Tocavam partes do seu corpo que nenhuma mulher tinha tocado. Faziam calafrios subir pela sua coluna estremecendo até o cérebro. Contavam histórias de assassinatos dos quais foram vítimas, com o hálito de carne podre misturada com fezes, rindo maliciosamente e diziam que ele era o culpado, afirmavam que ele era Macus Negro, um assassino de prostitutas. E o prendiam acordado na cama, sem dormir, até a noite terminar.

Quando sua mãe entrou no quarto para acordá-lo, encontrou mais pálido e mais abatido que a última noite.

– São os pesadelos de novo? Filho, você deve ir se confessar… O Padre é o único que pode te ajudar.

Mas ele não respondeu. Apenas saiu do quarto e, arrastando-se como um doente, deitou-se sob a sombra de uma árvore e adormeceu. Nada o perturbou enquanto dormiu durante o dia. Quando a noite chegou, ele estava sem sono, mas estava com medo. Sabia que aquilo continuaria enquanto ele estivesse naquela casa, ou enquanto estivesse vivo…

Written by Lia Drumond

agosto 25, 2006 às 18:57

Publicado em Contos

2 Respostas

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  1. Se não colocar o desfeche desta historia, mando estas putas te cobrirem de cacete!

    Narcotico

    agosto 29, 2006 at 11:59

  2. parece o resumo de um livro espírita.
    ou seja, é bem possível.
    vai ter fim?

    marcus

    dezembro 4, 2006 at 15:23


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