Lia Drumond

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Vidas inúteis são iguais

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Vidas inúteis são iguais

Quando escrevia tinha certeza que todas as suas palavras não eram inéditas, por que nada é inédito. Escrever sobre a vida ou morte? Era só escolher. Mesmo sendo única, cada vida era igual. Nasce, cresce e morre. O que está no meio disso pode ser completado de acordo com a imaginação de cada um. Esse preencher é que faz cada vida ser diferente, cada conto ser uma nova estória. E ela preenchia a vida com letras. Mundos que só existiam na sua imaginação, fatos que só aconteceram nas linhas que conheceu.

Livros eram seus brinquedos favoritos. Sentia muita vergonha dos elogios que as tias lhe faziam enquanto apertavam suas bochechas.

– Ai, que menina linda! Esse redemoinho na sua franja faz seu cabelo ficar tão bonito! EU passo meia hora fazendo escova para conseguir isso!

Ela se escondia no quarto quando as visitas chegavam. Era chamada de caipira pelas primas mais velhas e mais sociáveis. Ela escrevia poemas sobre a chuva, sobre flores e sobre seu gato. Uma vez ela plantou um pé de feijão no algodão, essas *experiências científicas* que a escola pede para fazer em casa como tarefa. O pé de feijão cresceu e ela o transferiu para um pote com terra. E, regando e cuidando todos os dias, acompanhou o crescimento de três viçosas vagens. Ela lia para os brotos, elogiava o crescimento. Conversava com a vida que ela acreditava ter criado.

Quando colheu e deu o resultado de seu trabalho para a mãe, ouviu:

– Que eu vou fazer com três vagens? Não está vendo que eu estou ocupada?

Depois desse dia, além dos livros, ela ficou vidrada em plantas. A razão daquela *experiência científica* não era ver uma semente germinar, mas saber se a vida que criara era útil. Assim como as pessoas vivem sem motivos, a sua vagem morreu sem utilidade. Esse contato com a morte foi o primeiro de uma sequência. E foi então que ela começou a escrever o livro entitulado: Vidas inúteis são iguais.

Written by Lia Drumond

agosto 30, 2006 às 14:58

Publicado em Contos

6 Respostas

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  1. Vc ja me contou essa história.

    May

    agosto 30, 2006 at 20:33

  2. Quando escrevia tinha certeza que suas palavras não eram inéditas…

    E nem por isso eram inúteis.

    E nem iguais…

    Jefferson de Souza

    setembro 1, 2006 at 18:55

  3. Lindo, isso aqui…

    Queria saber escrever contos assim…

    Valeu pelo comment!

    Apareça mais vzs!

    Jefferson de Souza

    setembro 1, 2006 at 18:58

  4. Inútil? Inútil para…? Algumas pessoas mais revolucionárias tendem a achar que quem vive para si mesmo, ou quem não vive em prol de toda a sociedade, é inútil. Todos buscamos a felicidade, mas a felicidade não é igual para todos. Quem vê a felicidade em si mesmo provavelmente não será útil aos outros e mesmo assim não será uma pessoa inferior. Ou melhor, será inferior para aqueles que desejam que seja de uma forma diferente, mas a um olhar imparcial continuarão sendo todos iguais. Como sempre, depende do referencial.

    Leonardo L.

    setembro 2, 2006 at 17:08

  5. É bom saber que vc curtiu!
    Apareça por lá mais vzs!
    Bjo! =*

    Jefferson de Souza

    setembro 4, 2006 at 20:25

  6. Existencialista voce, eih?!
    Esse conto é muito bom, realmente.
    Questões como essa devem ser tratadas com muito cuidado. Acho que nos expõem de certa forma. Por isso, hoje, espero a fase mudar para publicar o que sinto, o que penso.
    De qualquer forma, motivos somos nós mesmos que inventamos. Para compreender a vida, devemos ter um olhar mais profundo e amplo. Quem disse que a vagem não tinha utilidade? E as sementes que carregavam?
    Um abraço,
    Zan

    Zan

    janeiro 24, 2007 at 14:11


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