Lia Drumond

É só um blog…

Martírio

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Martírio

Não usava nada além de um pedaço de pano para cobrir o sexo, estava machucado, torturado, quase inconsciente. Carregava um enorme peso, sem muita noção do que era, apenas imaginava que logo tudo acabaria. Sentia-se tonto de fraqueza, o calor era escaldante e muitas pessoas faziam barulho ao seu redor. Choro, grito e desespero. Muita gente estava ali. Ele não conseguia se lembrar o que tinha feito. Tudo doía em seu corpo. O cume do monte estava próximo, logo tudo acabaria. E então ele percebeu quem era.

Não, ele não era mais o mesmo. Onde estava seu quarto? Ele pensou que estava sonhando, mas a dor que sentia era bem real. Ele se olhava sem acreditar. Aquelas não eram suas mãos, aqueles pés descalços eram de outra pessoa mas andavam como se fossem dele. Ele queria um espelho, mas naquela situação seria impossível conseguir algum. Tentou falar com uma mulher que chorava enquanto o seguia, mas o som que saiu de sua boca era incompreensível, nunca ouvira aquele idioma. E a mulher parecia entender, falava e gesticulava como se o conhecesse.

Quando chegou ao alto do monte sentiu que conhecia aquela história, mas não era possível. Aquilo era um sonho. Ele não seria crucificado de verdade. Ele não era filho do Pai. Mas… dizem que todos somos. Será que ele era Jesus? Será que aquela era uma lembrança de sua vida passada? O que estava acontecendo? Enquanto ele, atordoado, tentava pensar no que estava acontecendo, soldados romanos erguiam a cruz que ele tinha carregado até ali. Puxavam seus braços para cima e, quando enfiaram estacas em suas mãos, desmaiou de dor.

Quando seus olhos abriram, achou que o pesadelo tinha chegado ao final. Mas tinha acordado apenas do desmaio. Estava pregado numa cruz. Pessoas choravam aos seus pés ensanguentados, um maluco recolhia num cálice o sangue que pingava, outros faziam discursos num idioma totalmente estranho e ele estava ali, pregado na cruz. Não conseguia entender por que esse pesadelo não acabava, por que ele não acordava e passava a noite inteira jogando video game. Jurou que, quando acordasse, nunca mais dormiria novamente. Sentia muita dor para aquilo tudo ser um sonho. Sentia a respiração cada vez mais difícil. Sentia que estava morrendo. Sentia cada agonia de alguém que está quase morrendo. Sentiu quando o corpo não sentia mais dor. Sentiu quando o seu coração bateu cada vez mais devagar. Sentiu o fim. Morreu.

Só acordou no mundo que conhecia depois que morreu. Nunca conversou com ninguém sobre o sonho que teve. Mas, de alguma maneira, sabia quais pessoas tiveram o mesmo sonho que ele sonhara aquela noite. Algo em suas expressões mudava para sempre. E ele sabia que sempre, toda noite, alguém estava sonhando o sonho do maior mártir que a história conheceu. Talvez era por puro sadismo de seu Pai, que dizem ser o Pai de todos.

Written by Lia Drumond

outubro 9, 2006 às 19:26

Publicado em Contos

5 Respostas

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  1. O início de todos os contos está horrível (especificamente a primeira frase), mas a idéia e o desenvolvimento são legais.

    Cara chato

    outubro 9, 2006 at 21:35

  2. Nossa, Lia, arrebenta!
    Li de passagem porque tenho que ir descansar mas queria ver este blog seu. Vou linkar quando acordar.

    O final achei chocante, tenho certeza de que tudo deve estar bom como todas as coisas que você escreve.

    tina oiticica

    outubro 10, 2006 at 0:36

  3. Olha… De fato, uma idéia muito bem-selecionada e bem-desenvolvida…

    Mas, diferente do Cara Chato, eu achei que o desfecho deixou um pouco a desejar… A idéia fica meio vaga no final… (Talvez, tenha sido justamente essa a tua idéia… Mas…)

    Peraê! O que eu tô fazendo? Nem escrever contos eu sei… E por que eu estou aqui, criticando teu conto? Acho que só fui no embalo do Cara Chato mesmo…

    De qqr forma… Fico feliz em ver que vc voltou a atualizar este espaço, Lia! E, apesar de ter baixado o crítico-ignorante-que-só-mete-o-pau-mas-não-sabe-fazer-melhor, eu adorei o escrito! De verdade!

    Bjão!

    Jefferson de Souza

    outubro 10, 2006 at 14:30

  4. Show de bola…parabéns pelo baby…Américo é um nome lindo.

    Alisson

    outubro 10, 2006 at 17:16

  5. Coragem! Muita coragem de tratar desse tema. Inovação! Achei fantástico a idéia de se colocar no lugar de Jesus. Trabalho! É isso que faz o resultado (conto) melhorar. Fé! Não desista e persista, apesar das críticas e elogios. Prefiro as críticas, nos fazem ver nossos erros e apontam onde temos que melhorar. Elogios podem nos enganar, apesar de serem úteis também.
    Abraços,
    Zan

    Zan

    janeiro 24, 2007 at 14:17


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