Lia Drumond

É só um blog…

Dinheiro na mão

leave a comment »

Dinheiro na mão

Queria se transformar em qualquer coisa bonita, queria ser admirada pelos adjetivos que nunca usaram com ela. Queria ser desejada, invejada, imitada. Queria ser a rainha da Primavera, da bateria, do bairro, de qualquer coisa que significasse : Ela é bonita! Sentia-se feia e assim era. Seu rosto era todo esburacado, cheio de perebas roxas de acne cutucada e cicatrizada, seu nariz era largo e caído, sua boca quase não tinha lábios, usava óculos fundo de garrafa, seu cabelo liso sempre parecia ensebado, seu corpo era redondo e não se podia distinguir onde terminavam os seios e começavam as pernas. E pra piorar tudo, ela tinha mau hálito e um problema fonológico que a fazia pronunciar as palavras como o Frajola. Cuspia enquanto falava.

Trabalhava na expedição de uma grande loja de enfeites, não tinha que lidar com o público e tinha poucos colegas por perto. Seu trabalho podia ser resumido em identificar os produtos, escrever o endereço dos compradores nas etiquetas de endereço e despachar as mercadorias no fim do dia. Não costumava sorrir e era muito tímida. Não tinha amigos e se isolava da família. Tinha uma irmã mais velha que era linda e adorava humilhá-la. Seus pais eram evangélicos fervorosos e a obrigavam a acompanhá-los ao culto toda semana. Ela ouvia às palavras do pastor e sua fértil imaginação transformava o texto em sacanagens, como se ele estivesse lendo um poema erótico. Ela adorava uma putaria, mas escondia isso como se fosse um segredo mortal. Morria de medo de morrer virgem.

Já experimentara apelidos como rolha de poço, tranca-rua de festa junina, chupeta de mamute. Já tinha ouvido que ela tão feia que parecia que lhe tinham colocado fogo na cara e apagado com um tamanco. Já tinha sido rejeitada até pelo mais feio de todos os garotos que conhecia. Pensava em juntar dinheiro e contratar um puto para tirar-lhe a virgindade, mas era muito caro bancar o puto e o motel onde teriam de ir. E, além do mais, seria o cúmulo da rejeição ter de pagar para um homem lhe querer apenas para sexo. Mas, se fosse a última opção…

Naquela manhã, caiu da cama antes do relógio despertar no horário de sempre. Exatamente sete minutos antes. Bateu o lado do rosto e foi para o trabalho com o olho começando a ficar roxo. Pegou o ônibus mais lotado que o habitual e chegou atrasada. Seu chefe reclamou, apesar de terem sido apenas dez minutos. Quando chegou ao seu departamento, encontrou uma caixinha de veludo vermelho com uma etiqueta. Na etiqueta estava escrito seu nome, era um presente. Imaginou que era mais alguma gozação de algum colega. Pensou em não abrir, mas abriu. Dentro tinha um globo de neve, desses que vendiam aos montes na loja. Só que este tinha uma linda fada lilás sentada num poço. E havia uma placa sobre o poço que dizia: Poço dos Desejos. Ela sorriu, não era uma brincadeira com seus complexos, era apenas um belo agrado. Colocou em sua bolsa e levou pra casa.

Antes de dormir, procurou uma escova de cabelo que estava em sua bolsa e notou o globo de neve. Pegou e ficou admirando a graciosidade do objeto. Imaginou que se pudesse, atiraria uma moeda ao poço e faria um desejo. Quem sabe o que poderia acontecer? E, logo depois desse pensamento, viu cair uma flor do cabelo da fada dentro do poço. Pensou: ?Esse negócio não presta! Nem mexi e já está quebrando…?

No dia seguinte, achou um bilhete de loteria na rua e, por curiosidade, conferiu o resultado. Não acreditou quando viu que estava com o bilhete premiado. Sentiu-se tonta e pediu ajuda para uma atendente da casa lotérica. Sim, ela tinha acabado de ganhar quase vinte milhões de reais. Sim, ela estava milionária. Sim, agora ela era poderosa. Mal podia esperar para ter o dinheiro em mãos, contar para a família, se demitir do emprego e mandar o patrão pro inferno. Poderia fazer qualquer coisa. Poderia ficar bonita como sempre desejou, fazer plástica no nariz, lipo na pança e escova no cabelo. Poderia ser feliz, finalmente.

Alguns meses depois de ter faturado uma fortuna e continuava a mesma pessoa de sempre, só que com roupas mais caras. Não fez plástica ou escova no cabelo. Foi ao salão de beleza apenas uma vez, para ver como era… Mas, algo realmente assustador aconteceu depois de ter ficado podre de rica: agora todos a queriam e desejavam. Ninguém mais fazia piadas sobre sua obesidade ou seu nariz de coxinha. Seu dinheiro tinha transformado sua vida. Morava sozinha, tinha homens que a queriam, sua irmã exibida e metida a idolatrava e sua família concordava com tudo o que dissesse. O dinheiro não lhe trouxe a beleza, pois sabia que continuava a mesma toda vez que se olhava no espelho. O dinheiro lhe trouxe a hipocrisia que as pessoas têm para oferecer. Era assustador.

Mas, por pior que fosse, nunca mais seria: Jesus me ama – *mas ninguém me come…*

Written by Lia Drumond

outubro 16, 2006 às 14:42

Publicado em Contos

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: