Lia Drumond

É só um blog…

Passado

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De repente, estava num lugar estranho, chão coberto por areia e sujeiras indefiníveis. Pessoas vestidas à maneira do oriente médio. Talvez estivesse sonhando com o Afeganistão, por que tinha lido o “Caçador de pipas” e “O livreiro de Cabul” na última semana. Era um sonho. Resolveu ver o que acontecia…

Andou pela rua, a luz do Sol era amarela e forte. Não sentia cheiro algum. Ouvia um ruído estranho, talvez o ronco do marido ou o barulho na rua que chegasse até seu subconsciente. Viu uma tenda de trapos claros, parecia coisa cigana, mas se ali era o oriente médio, tendas eram comuns. Parou em frente e esperou. Observou que em volta estava crescendo rapidamente um espaço gramado e pássaros tropicais voavam para as árvores que surgiam em volta da tenda. Era como se ela estivesse emanando vida. Vegetação e fauna pareciam crescer enquanto ela observava uma pequena abertura na tenda.

Uma menina, ela mesma quando era menina, olhou em seus olhos e chamou em sua mente. Não mexeu os lábios. Disse apenas “-Entre!”. Só para ela, só na cabeça dela… E ficou esperando com a mãozinha estendida… Seus olhos, seus próprios olhos com sete anos de vida, cheios de confiança e um sorriso de quem esconde uma travessura fitavam seu futuro com a inocência da ignorância. Não parecia saber que aquela mulher seria ela, um dia.Sentiu uma tontura e tudo ficou mais escuro. Parecia entardecer de um minuto para o outro. A aurora roxa e cor de laranja cobriu o céu e um vento frio arrepiou sua nuca. Um calafrio ou uma intuição?

Lembrou de um outro sonho que teve na infância. Já esteve naquele lugar antes! Já tivera aquele sonho, mas não conseguia se lembrar de detalhes… Olhou para as próprias mãos e, num movimento comum aos seus momentos de introspecção, se fechou para pensar no que acontecia. Lembrou do sonho… Lembrou que fazia muito tempo. Sonhou que chegava sozinha àquela mesma tenda onde as coisas brotavam magicamente em volta. Sonhou que chorava por não encontrar sua mãe, sua casa. E, de tanto chorar e gritar, um homem saiu de dentro da tenda e a pegou no colo. Seus olhos eram acinzentados, num tom indefinível. Tinha o sorriso e a voz muito familiares. Cobriu-a com uma manta  branca, muito simples. Mais parecia um saco de pano, mas cheirava a flores. O mesmo cheiro de flores que suas roupas tinham na casa de sua mãe.

O homem a confortou em seu colo e disse. “-Você vai ter que esperar um pouco. Falta um bom tempo para ela chegar”. E então esperou. Pareceram dias, mas foi o sonho de uma noite na infância. Certo dia, a tal mulher chega e o homem pede que a receba em frente à tenda. Quando entram na tenda… Um branco… Não consegue lembrar mais do homem ou do aconteceu depois… Olha em volta e se vê menina, esperando com a mãozinha estendida.

Segurando a mão dela mesma menina, entra na tenda e se encontra rodeada por uma floresta tropical exuberante. Era como se não estivesse mais no oriente médio e tivesse sido levada para um tipo de Éden do mundo dos sonhos. O tal homem que a pegou no colo em seu sonho de menina estava em pé, próximo a uma mesa onde um banquete estava servido. A esperava… Sorriu com olhos e estendeu a mão para acomodá-la na cadeira principal, na cabeceira da mesa.

Sentaram-se todos e o homem começa uma conversa:

–         Enfim, vocês estão juntas.

–         Mas, não somos a mesma… ?

–         Não mais. Não concorda?

–         Sim, eu cresci, tive experiências e me tornei uma mulher.

–         Não, você não se tornou a mulher que ela imagina que vai se tornar…

–         Ah, sim. Não me tornei a cantora mais famosa do mundo, mas sou o que pude ser. As coisas na minha vida não foram fáceis. Eu não pude estudar muito e tive de trabalhar desde os treze anos, eu não podia…

–         Você não se tornou o que ela imaginava. Ela só imaginava que seria feliz para sempre. Ela não tinha tudo o que queria, mas sabia ser melhor do que você é hoje. Por isso, vamos tirá-la de você.

–         Como assim? Não podem tirar de mim o que eu fui. Quem eu era… Eu sou ela, não tem como ficarem com ela. Isso é só um sonho idiota!

–       Sim, talvez. Mas quando você acordar, não se lembrará mais de como era ser essa menina, e vai ser apenas toda a tristeza que enxerga em si. Você não vai mais ter o refúgio nas lembranças. Vai se esquecer de como é subir numa árvore e comer fruta, fazer panelinhas de barro, cavalinhos de batata, buquê de mato para enfeitar casinhas imaginárias. Vai esquecer da alegria que era ter criatividade e ser feliz com o que tinha. Diga adeus para essa menininha….

Written by Lia Drumond

julho 30, 2007 às 11:11

Publicado em Contos

2 Respostas

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  1. muito legal. adorei

    Fábio

    agosto 2, 2007 at 20:01

  2. Olá srta.
    Muito tempo que não passo pela sua casa. Alías, passei rapidamente há algum tempo, mas não pude ler grandes coisas.
    Acho engraçado que se eu começar a ler algo aqui, sempre continuo e ai, parar é o problema hehe.
    De qualquer forma.é engraçado parar para pensar em como as coisas não saíram como planejado quando criança. E principalmente, como era fácil ser feliz,se tivesse uma bexiga rs..
    Aiai… ótimo conto srta, parabéns. Vou te colocar nos favoritos novamente.

    Khronos

    agosto 16, 2007 at 12:15


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