Lia Drumond

É só um blog…

Amor para morrer

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Lembrava do tempo em que ele dormia ao seu lado, seu ronco e seu suor ocupavam o quarto e ela se sentia segura. Gostava de imaginar que ele ainda chegaria, que estava logo ali, na sala ou na garage. Fotos por toda a sala de visitas denunciavam uma vida cheia de vidas. Lugares pelo mundo, sorrisos de jovens namorados, jovens pais, jovens senhores, velhos companheiros…

Na sala,um chá e um poema de Vinícius faziam seu coração apertar, lágrimas enchiam seus olhos e deslizavam sobre a face triste e castigada. Ele adorava Vinícius. Ele adorava a vida. Pelo menos não sofreu. Mas ela estava sofrendo muito. Era triste ver alguém que foi tão feliz ao lado do amor da sua vida sozinha. Toda sua juventude, as coisas mais felizes e tristes do amadurecimento, a família, tudo tinha sido feito ao lado dele. E ele não estava mais ali. Nunca mais estaria.

Tantas vezes ela disse que não viveria sem ele, que ele era sua vida. E ainda estava aqui, ainda respirava. Mesmo sentindo o ar vazio, mesmo sentindo que não era capaz de sentir mais nada além de dor, tristeza. Até quando ela esperaria? Sim, ela esperava. Acreditava que uma noite ele chegaria. Tomava seu chá e lia Vinícius em voz alta, para que ele ouvisse quando chegasse. Chorava quando o texto acabava. Queria ouvir a voz dele dizendo mais uma vez: “- Isso é lindo!”. Então ela mesma chorava e dizia: “- Isso é lindo, meu amor…”

Um amor lindo foi aquele. Mais de meio século de amor romântico, fiel e bem humorado. Era um casal feliz, com brigas por bobagens e rotina incluídos no pacote. Não eram perfeitos, mas eram complementares. Não tinha pessoa que não admirasse ver os dois velhinhos na praça, abraçadinhos e dividindo um sorvete. Não tinha quem não se perguntasse se um dia encontraria alguém para passar a vida junto, daquele jeito.

Uma noite ela chorou depois de seu ritual de chá e Vinícius e foi se deitar. Quando chegou em seu quarto, ele estava lá, deitado de lado na cama. Nu e jovem. E ela também agora estava no auge. Sorriram em silêncio. Ela se aproximou, o abraçou e entendeu. E os dois se amaram por toda a noite sem fim…

Written by Lia Drumond

setembro 6, 2007 às 10:26

Publicado em Contos

2 Respostas

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  1. Me lembrou um conto meu… caixinha de música… por muitos motivos me lembrou…
    Obrigado pelas memórias mocinha

    Khronos

    setembro 8, 2007 at 2:05

  2. Embora eu pense q não seja exatamente assim, espero q eu ache as pessoas q amei do outro lado, qdo terminar meu trabalho desse. Um beijo.

    worklover

    setembro 9, 2007 at 15:23


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