Lia Drumond

É só um blog…

Mistério da meia-noite e onze.

with one comment

Numa cabana muito fria, em uma montanha muito longe, ele estava prostrado numa cama. Apenas um outro, surdo de velho, lhe cuidava e fazia companhia. E os dias e noites passavam iguais. Ele só levantava para tomar um banho semanal, todas as outras tarefas eram feitas por seu companheiro. Ele era um inútil agora. Só esperava morrer, nem tinha forças para se matar. Todo dia ele tentava prender a respiração até o fim, mas o organismo não obedecia. Continuava vivo, respirava apesar de toda sua vontade do contrário. Só as lembranças o confortavam e, agora, nem elas podiam ser lembradas com o amigo, que nem conversava mais por viver no silêncio.

Aquela noite estava especialmente fria, o sujeito de cama está tremendo e outro percebe. Alimenta a lareira e aquece o lugar. O calor confortante faz os dois lembrarem, em silêncio, daquela noite insuportavelmente quente em que estavam na Tailândia. Foi uma aventura e tanto e, quase ao mesmo tempo, os dois deram um sorrisinho de canto de boca. Aquela tinha sido uma grande noite.  Perderam-se numa floresta, foram atacados por insetos, tiraram suas roupas e pularam na água. Foi quando ouviram risos de umas moças que pareciam estar muito a vontade na floresta escura e assustadora. Elas riram, gritaram e foram até eles.

Eram cinco mulheres jovens, cada uma tinha o cabelo de uma cor. Não pareceram estar envergonhadas com a nudez dos dois rapazes. Estavam curiosas, sorridentes. Eram rápidas como macacos, lindas como gazelas. Circundaram os dois, cantarolavam alguma coisa, uma delas, a de cabelos negros, se aproximou e os cheirou. Cheirou o pescoço, o peito, desceu a cabeça até a virilha. Ergueu-se com um sorriso enigmático e apenas disse que não eram maduros o suficiente para elas. Perguntou aos dois se queriam encontrá-las quando estivessem prontos. Ambos responderam que sim. Ambos estavam excitados. Ambos ficaram de queixo caído quando as mulheres evaporaram na neblina da floresta.

E ambos nunca acreditaram que aquilo foi real. Nunca conversaram seriamente sobre o assunto. Mas, ao mesmo tempo,  lembraram da grande noite em que apareceram nus na cidade onde estavam hospedados e apanharam de alguns homens por isso. As roupas tinham desaparecido assim como as mulheres. Evaporaram. Mas, para os dois moços que eram muito urbanos, aquela tinha sido a aventura de suas vidas. E pensavam: – Que vida besta!

Quando a lembrança estava sumindo da memória dos velhotes, o cuco anuncia as doze badaladas. Mas, os ponteiros marcam meia-noite e onze minutos. Resmungam qualquer coisa e o que ainda escuta ouve alguém bater na porta da cabana. O surdo nem percebe e então ele balança o braço, na tentativa de chamar a atenção do amigo. Nada. O surdo levanta e abre a porta por vontade própria, como se fosse ao banheiro. Não pareceu ter escutado as batidas, mas abriu a porta e parou. De onde o inútil estava, não podia ver quem estava na porta. Não adiantava perguntar. Mas não demorou para que a cabana toda ficasse tomada por uma neblina familiar.

Cinco mulheres jovens e com cabelos de cores diferentes entram na cabana. O amigo surdo cai de joelhos, o inútil fica boquiaberto. Há décadas nenhum dos dois vê mulheres tão lindas e com tão poucas roupas. Ficam excitados, o que não acontecia há séculos. Elas invadem o ambiente todo, preenchem cada espaço e sussurram deliciosamente: – Agora vocês estão prontos para o nosso encontro…

Os dois velhos evaporaram…

Written by Lia Drumond

outubro 2, 2007 às 21:03

Publicado em Contos

Uma resposta

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  1. Eu vou ficar só com esse blog Lia! ^^

    que conto louco, gostei… parece lenda.

    bjs

    Dri

    outubro 2, 2007 at 21:31


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