Lia Drumond

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O despertar

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Um certo dia ela não acordou, mas despertou para uma realidade bem esquisita. Ela estava deitada, parecia dormir, só que dentro de um caixão. Pessoas choravam em volta. Ela via o seu corpo ali, mas enxergou como se fosse de outra pessoa. Aquele corpo não mais lhe pertencia. Seria a morte? Sim. Ela sabia. E sabia que não conhecia esse lugar: o além. Não havia além para ela, que estava ainda aqui. Sabia-se morta, mas vagava entre os vivos, entre os seus. E então se deu conta que inha deixado alguém, quis chorar. Sentiu um nó na garganta, uma sensação de mal estar lhe percorreu o que um dia foi estômago, mas não houve lágrimas para aliviar tanta agonia. Era como se fosse explodir. Nem explodia, nem chorava. Apenas aquilo e a lembrança de seus filhos. Ela deixou dois filhos para trás. Mas ela podia vê-los, ouví-los. Não podia tocá-los, eles não a viam. Eles é que perderam a mãe. Ela não os perdeu. O pai de seus filhos, ele a perdeu. Muito antes de sua morte. E agora sentia o desespero da ausência dela. Não era saudade, era desespero. Ele, que nunca mais a tratou como a mulher amada, que nunca mais tinha escrito pra ela ou pintado seu retrato. Ele estava só agora. E só poderia estar desesperado. E ela também estava. O desespero  tomou os dois e a casa que já fora um lar feliz, teve seu clima carregado, pesado. As crianças dormiam muito e, quando acordavam, choravam a falta da mãe. Ela chorava, sem lágrimas, seu desespero implosivo; ele chorava com as crianças, como uma criança.

O tempo passou. As crianças choravam menos, o marido chorava quase nada, a vida continuava. Menos pra ela, que jazia ali, de alguma maneira. Será que a alma poderia morrer mais que o corpo? Será que ela ficaria eternamente assistindo ao próprio esquecimento? Os dias nasciam e morriam, e nenhum sinal de Deus, Diabou ou qualquer outro fantasma que quando estamos vivos temos medo de encontrar. Nenhum sinal de vida e nem de morte. O que era ela, afinal? Tinha morrido, mas despertava em sua cama todas as manhãs. Estava morta, mas não ía embora dali. Seu filho crescia. Sua filha também. Ele tinha mais lembranças. Era ele quem consolava a irmãzinha quando ela chorava por não se lembrar da mãe. Era ele quem a mantinha aqui. O marido já a tinha esquecido, vivia até uma nova paixão.

A paixão dela era aquela família. E só depois de morrer aprendeu que tudo vive quando você não está mais lá, tudo continua. Ela nem mais pensava em até quando seria prisioneira da vida que perdeu. Apenas estava ali. E ali continuaria pra sempre a cuidar de seus filhos…

Written by Lia Drumond

janeiro 16, 2008 às 12:51

Publicado em Contos

Uma resposta

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  1. Lia, eu até que acredito, em parte, na descrição da morte como você a descreveu na sua crônica.
    Abraços
    Adelino

    Adelino

    janeiro 20, 2008 at 19:57


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