Lia Drumond

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Lábaro

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Se fosse pra escolher, queria ser super-herói. Passava quase todo o tempo defendendo os fracos e oprimidos que o jornal mostrava, e reclamava até mesmo do fato de usarem a miséria humana para a manchete chamar mais atenção.  Era contra o sensacionalismo, a imprensa cor de cocô. Era a favor da “imparcialidade” pseudo-marxista de seus colegas boêmios. Esses, sim, sabiam da “miséria” que é a burguesia.

Era apenas um jornalista. Jornalista era boêmio. Boêmio era vagabundo. Ele não passava de um vagabundo aos olhos de Luciana. Mas queria ser o herói da moça para conquistar seu coração e, quem sabe, namorá-la. Muitos diziam que ela era modernosa por que namorou e não casou. Ele nem se importava, desde que ela o aceitasse também. Mas ela fazia  que ele nem existia. Tratava-o apenas como mais um vagabundo que trabalhava para o jornal de seu pai.

E seu pai, Sr. Rashid, era uma fera. Turco com gastrite. Só pensava em vender mais jornal, mais anúncios, mais manchetes. Não pensava duas vezes em destruir a vida de uma pessoa quando a reportagem prometia vender bem. Não se importava com a verdade de fato. Repetia sempre: “Se ele disse, basta escrever que foi ele quem disse e pronto!”. Não pensava duas vezes em demitir um jornalista que o contrariasse e, segundo a lenda, tinha mandado matar um fotógrafo que, supostamente, tinha fotografado sua falecida esposa, nua, no colo de seu motorista, também nu. O fato é que o tal fotógrafo tinha trabalhado para o homem e tinha sido assassinado brutalmente. A falecida esposa morrera algumas semanas depois. Nada foi investigado pela polícia.

Luciana era filha daquele cara e ele era um zé-ninguém que não teria chances. Só conseguiria a pequena se arrumasse uma maneira rápida de conseguir dinheiro fácil. Na sua profissão isso nem era tão difícil. Ele só precisava ter peito para arriscar a própria vida ameaçando algum político. E ele tinha bastante “material” para o “serviço”.

Escolheu um político bem rico e bem podre, daqueles que nem é preciso investigar muito para descobrir atrocidades que incluíam pedofilia, tortura de inimigos políticos, o assassinato de um padre “comunista”, apropriação indevida de espaço público, corrupção ativa e passiva, e mais muitos outros crimes que ocupariam algumas horas para contar. Era conhecido como Sr. Alvin, mas até esse nome poderia ser um crime. Ele escolheu Alvin não por que era um criminoso mais que conhecido, e sim por que ele não temia a justiça e não fazia a menor questão de esconder suas atividades criminosas.

Montou uma armadilha para Alvin. Queria uma foto bem comprometedora. Queria um escândalo de verdade. Nenhum crime cometido pelo homem tinha sido sequer investigado. Decidiu que não adiantaria pegá-lo pela ética ou moral, teria de ser pelo ego mesmo. Teria de ser algo que mobilizasse a todos contra ele. Teria de ser um flagra que comprovasse que o homem era um inimigo público perigoso. Divulgou, então, que naquela tarde haveria uma homenagem ao Sr. Alvin, no parque municipal, ao anoitecer. E a notícia se espalhou depressa.

 O Sr. Alvin não se mostrou surpreso com a homenagem. Sorria satisfeito, com um ar de quem sempre foi – e deveria continuar sendo sempre – homenageado. Arrumou-se com esmero para a celebração. Cumprimetou o Sr. Rashid e as outras pessoas “importantes” no evento. Passou direto pelo idealizador da “homenagem”. Brindou aos importantes erguendo sua taça de cristal e rindo satisfeito. Comeu os canapés sem perceber que tinham laxantes poderosos. Disfarçou muito bem quando suou frio de dor de barriga. Se esquivou para uma moita de maneira sorrateira, calculando que chegar ao banheiro seria um desastre. Abaixou as calças quase sem tirar os suspensórios e sem olhar para o lugar em que realizava sua grande “obra”.

Não percebeu os dois clarões do flash da máquina fotográfica por que tinha fechado os olhos, tamanho o prazer do alívio que sentia. Quando acabou, limpou-se com um guardanapo de seda que furtara da comemoração exatamente para essa finalidade. Ao subir as calças, deu-se conta que tinha cagado em cima de um pano. Ao olhar melhor, percebeu que era a bandeira do Brasil. Não fez caso e voltou para a festa. Não demorou para uma velha histérica achar a bandeira. Nao demorou para todos excomungarem o cagão e até a quinta geração de sua família. Não demorou para o homenageado arrumar um bode expiatório pobre e acusá-lo na frente de todos. O plano não poderia estar mais perfeito. A foto do lábaro cagado pelo Sr. Alvin seria o passaporte para o coração de Juliana.

Continua…(talvez)

Written by Lia Drumond

fevereiro 13, 2008 às 15:16

Publicado em Contos

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