Lia Drumond

É só um blog…

O gosto de A.

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Ela devora as coisas a sua volta e sorri para o vazio. Absorve tudo com os olhos e ouvidos e nariz. Não toca e nem lambe, ainda… Quando ninguém está olhando, ela chega mais perto e coloca a mão, depois dá uma lambidinha e faz cara de nojo. Nunca tinha visto um cadáver antes, mas era assim que experimentava a vida. Sempre levou bronca quando flagrada com a boca onde não devia. Mas o gosto das coisas era o que mais lhe atraía na vida… O gosto. Aquele cadáver tinha gosto de pó e ferida. Não estava com medo por que acreditou quando sua tia lhe jurou que fantasmas não existiam e que a casa não era má assombrada. Elas tinham passado a noite quase inteira com a luz acesa e nenhum fantasma apareceu. Então seu pai agora era apenas um cadáver e o espírito tinha sido levado pro céu pelo seu anjo da guarda. Não tinha virado um fantasma.

Colocou uma flor na boca. Já tinha provado daquelas. Uma flor amarela, com muitas pétalas, cris… cris… “Crismânteno!”. A sala estava quase vazia. Sua avó tinha passado por ali e deixado todo mundo chocado. Uma cena e tanto. Una bruja vieja, como sua mãe dizia. Um lenço sujo amarrado nos cabelos brancos e muito compridos, verrugas pelo rosto e olhos assustadores num corpo encurvado e coberto de negro. Era quase de seu tamanho, notou quando a velha chegou quase carregada pelos outros tios, mas parecia que nunca tinha sido uma criança. E seu pai era o filho caçula e preferido da avó. Ela gritava e chorava de maneira estidente na cabeceira do caixão: – Hijo de mi alma!!! Hijo de mi corazón!!! Por qué murió antes que yo? Os gritos eram tão tristes… Ela esmurrava o peito, rasgava o pescoço com as unhas e chorava tanto que tiveram de secar o chão quando saiu desmaiada. As lágrimas da avó tinham um gosto amargo, salgado e ruim. Aquele devia ser o gosto da amargura e do desespero. Quanto levantam o caixão, ela sente um frio na barriga. E agora? Então é nunca mais? Sentiu uma culpa enorme por não ter contado ao pai sobre o relógio que quebrou e escondeu. Desaba a chorar. Nunca mais…

Pai! Seu relógio! Fui eu quem quebrou, eu enterrei no quintal pra você não ficar bravo comigo… Pai! Não precisa morrer! Me desculpa! – Sua mãe também recomeça a chorar e seus irmãos menores também. Um calor e uma vergonha com gosto seco e nó na garganta lhe sube pelas orelhas e ela pára de chorar. Agora ela tinha de ser uma mocinha, foi o que sua tia disse. Tinha de ajudar a mamãe a cuidar dos três irmãozinhos… Sua mãe a abraça e diz: – Não é culpa sua, filha! Deus é injusto! Deus que é injusto! Sua tia lhe pega pela mão e diz que a mãe está muito triste, que não sabe o que diz, que Deus é bom. Ela fica confusa, mas Deus é sua menor preocupação agora, pois queria saber o gosto que tem um cemitério. E estão quase chegando quando ela vê, pela primeira vez na vida, um periquito de realejo. Leva um puxão da tia, que olha bem feio. Sente mais um calor de vergonha, mas a vontade de saber o que era aquilo a tinha hipnotizado. Onde já se viu deixar o funeral do pai pra ir brincar com um passarinho? Agora, ela é uma mocinha! Tem de se comportar e não irritar a mamãe. – Nunca mais eu vou lamber as coisas perto da minha mãe! Apesa de dizer bem baixinho, a tia ouviu. – Que você disse? – Vergonha quente de novo, mas na tia ela confia pois é a pessoa de quem mais gosta depois do pai… – Disse que eu não vou mais lamber as coisas perto da mamãe. A tia sorri e lhe aperta os ombros. Chegam, enfim, ao cemitério. Ela devora as coisas a sua volta.

Written by Lia Drumond

março 1, 2008 às 20:54

Publicado em Contos

5 Respostas

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  1. Querida Lia:

    Dia 29 foi aniversário da minha mãe, 88 anos. Já tive a minha cota de enterros. Minha amiga alemã morreu, recebi mail.. Ela morreu dia 10/1/08. Se vocˆ´estiver desanimada, passa um mail. Beijos para todos e uma beijoca estalada para o Américo. Cuide-se.

    tina oiticica harris

    março 2, 2008 at 5:14

  2. Lia, fico maravilhado com os seus textos. Li os outros também. Vou até o fim esperando ver o nome do autor, que deve um dos famosos. E lá vejo: Lia Drumond.
    Meus parabéns.
    Beijos

    Adelino

    março 6, 2008 at 16:53

  3. Provando o gosto é que se aprende e que se escolhe.

    Mesmo que seja o sabor amargo da tristeza.

    bic azul

    março 6, 2008 at 18:58

  4. Lia, vim aqui cumprimentá-la pelo DIA INTERNACIONAL DA MULHER. Você uma das mais legítimas representantes delas.
    Beijos

    Adelino

    março 8, 2008 at 17:55

  5. de tão bem escrito pude imaginar cada cena, cada personagem, cada vida, e cada morte.

    Ana Fernandes

    março 8, 2008 at 19:37


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