Lia Drumond

É só um blog…

Bem feito pra ele

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PARTE I

Quando ela me contou, eu nem acreditei. Foi de repente, ela soltou tudo de uma vez, foi desabafo ou um ataque verbal. Fiquei pasma e passei a admirá-la ainda mais. Não que eu admire atos de violência, mas o dela foi mais que legítima defesa, foi verdadeira desforra sobre a tortura. E foi preciso escutar muitas outras coisas antes, foi preciso conhecê-la melhor e saber além do que eu via e ouvia através do muro que separava nossas casas. Muitas pessoas falavam dela, mas nunca tinham ouvido nada diretamente de sua boca. Eu sempre ficava sabendo pela Leonora, minha empregada. “A dona Márcia disse que ela casou com ele por dinheiro, deve ser uma pilantra!”, “Fiquei sabendo que o marido fica nada em casa, vive pro trabalho. E ela fica em casa o dia inteiro, não sai pra nada… dizem que já foi bailarina, deve ter sido essas dançarinas de boate!”

Leonora era venenosa, eu sabia. Mas eu gostava de ouvir sobre a mulher com quem dividia as paredes da casa geminada e sobre quem nada sabia, mal tinha visto, para ser honesta…  Leonora era feia e invejosa, a vizinha era nova- talvez bonita- e misteriosa. E, pelo visto, tinha se tornado o assunto da rua desde que mudara com o marido para a casa que foi de Marlene… Que saudades da minha amiga! Quase todo dia Leonora me contava uma nova notícia sobre ela. O que eu pude entender de toda a intriga é que era mais nova que o marido, que era muito feio pra ela; que passava horas lendo trancada em seu quarto; que talvez tivesse medo da própria empregada e por isso quase não comia… Eu nem imaginava! Tudo o que Leonora me contava sobre ela me fazia entender que era infeliz, estava sozinha. Eu, antes, tentei me aproximar uma vez que a ouvi chorando no quintal dos fundos. Perguntei se ela estava bem, tentei vê-la por cima do muro, mas ela abaixou e respondeu que sim, e foi muito malcriada quando me disse para cuidar da minha vida. Fiquei sem reação na hora, mas perguntei por que chorava… Ela se levantou e sussurrou perto do muro: “cada escolha foi uma renúncia, estou chorando por que eu QUERO!!!” – então ela gritou o quero e saiu correndo, pude ver que vestia uma longa camisola vermelha muito bonita, mas não pude ver seu rosto direito, fiquei o dia inteiro pensando nela. Quem diria que seria capaz de tamanha coragem!

Written by Lia Drumond

abril 15, 2008 às 19:12

Publicado em Contos

4 Respostas

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  1. Aula chata, melhor ler seu blog. Bjos

    Rafa Vidal

    abril 18, 2008 at 9:09

  2. Lia, gostei.
    “Parte I” pressupõe continuação, claro. Aguardamos.
    Beijos

    Adelino

    abril 18, 2008 at 14:56

  3. confesso ter ficado angustiada pela sua vizinha…

    Adri

    abril 24, 2008 at 16:51

  4. Lia, ótimo final de semana.
    Bjs

    Adelino

    abril 26, 2008 at 12:54


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