Lia Drumond

É só um blog…

Bem feito pra ele

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parte II

Talvez coragem não seja uma boa definição. No caso dela, acho que foi o desespero. Desde o dia em que me mandou cuidar de minha vida, passei a cuidar ainda mais dos rumores da casa ao lado. Encostava o ouvido nas paredes para escutar as discussões.  E foi quando realmente passei a perceber aquela mulher. Coitada… O marido lhe obrigava a ser sua escrava particular, e sempre a humilhava quando ela parecia fazer algo para agradar-lhe. E falava de um jeito que homem nenhum falaria com uma mulher, pelo menos não os  que gostam de mulher. Talvez ele não gostasse, mas nossa sociedade ainda aceita melhor um enrustido que um assumido. Ela chorava enquanto ele lhe dizia que era feia, que estava ficando flácida. Uma injustiça! Ela era realmente uma mulher linda, capaz de satisfazer os olhos de qualquer homem que admire de fato a beleza feminina. Ouvi os desmandos de seu marido florzinha por duas semanas e decidi lhe enviar uma carta. Mas fiquei num dilema terrível sobre o que escrever.

Depois de quase uma semana rabiscando páginas com a intenção de mostrar que queria ajudá-la, acabei por enviar um bilhete com apenas os dizeres: ” Quero te ajudar!”. Joguei o papel pelo quintal dos fundos quando ela estava em uma das suas sessões de choro escondido. Maldita hora! Ela não viu o papel e quem acabou encontrando foi o meticuloso marido, que adorava fiscalizar o trabalho da empregada ao final de todos os dias e infernizar a pobre com humilhações e gritos. O tal sujeito parecia sentir um imenso prazer em destratar as pessoas que lhe serviam. E, naquela noite, a briga foi um inferno. Se é que se pode chamar de briga o desconstrole de um homem que gritava histéricamente, acusando a mulher de traição com uma voz estridente, batendo os móveis e sozinho. Eu só a ouvia chorar. Chorar e soluçar. Imaginava qual a razão para ela não reagir, mas minha dúvida não ficou muito tempo  sem resposta.

Em uma briga dessas de todos os dias, ouvi ele ameaçar-lhe: “HA! Você quer saber? Nunca vai saber! E só vai colocar os olhos nele de novo se eu permitir!” – Fiquei imaginando quem seria ele, o que seria. Parecia ser esse o motivo de tanta submissão, ele escondia algo que pertencia a ela. O que seria? Uma semana se passou desde o papel que atirei, nem esperava qualquer resposta e já tinha desistido de tentar qualquer outro contato quando recebi um bilhete pelo quintal dos fundos. A letra parecia apressada, dizia apenas: “venha às 8, estarei só”. Não tinha data nem assinatura. Mas eu sabia que era dela e que tinha sido jogado naquele dia. Fiquei muito ansiosa pela noite, pois finalmente a veria e, talvez, saberia o que se passava naquela casa. Passei o dia todo pensando no que dizer, em como dizer. Não esperava saber de tanta tristeza…

Written by Lia Drumond

abril 28, 2008 às 19:58

Publicado em Contos

2 Respostas

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  1. Lia, belo conto. Meus aplausos.
    Um abraço.

    Adelino

    maio 2, 2008 at 18:42

  2. Mas e aí?
    Conseguiu ajudar sua vizinha?🙂
    Parabéns pelo dia das mães!

    Kid_Limão

    maio 12, 2008 at 8:47


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