Lia Drumond

É só um blog…

Bem feito pra ele

with one comment

parte III

Passei o dia aflita pelas oito horas, na minha idade os dias parecem se arrastar, a curiosidade me tirou até a fome. Fui até o portão cinco minutos antes das oito e pude ver sua empregada sair. Assim que ela virou a esquina, toquei a campainha da casa dela. Ela abriu quase imediatamente, veio apressada abrir o portão e me fez entrar como se estivesse apavorada com a idéia de alguém nos ver. Eu entrei o mais rápido que consegui, em silêncio, e me deparei com uma casa que parecia mais uma sala de espera de consultório. Poucos detalhes, tudo impecável e impessoal, nada de porta-retratos ou enfeites trazidos de viagens, tudo muito limpo e até assustador. Ela me olhou nos olhos muito aflita, não me perguntou se queria sentar ou beber algo, parecia estar em pânico ou louca. Perguntou como uma acusação: “Então você pode me ajudar?” – “Olha, minha filha, eu ouço as brigas de vocês e fico com pena… queria ajudar, mas não sei…” – ” Você pode? Quer ajudar ou queria?” – “Eu quero!” – Não sei se disse isso só para saber a história, naquela hora o que me mais me corroía era a curiosidade, mas queria tanto saber que não me importei com o que viria.

Ela se sentou, sem tirar os olhos de mim. Eu fiz o mesmo. Começou a chorar, mas falava sem pausas: “Eu me casei com ele sem saber que era uma pessoa tão cruel. Tenho um filho, bem… é como se fosse. Sou orfã desde os três anos, cresci num orfanato de onde fugi aos quatorze anos, foi quando entrei para uma companhia de dança e encontrei minha vocação… Quando tinha dezesseis, estava voltando para uma casa que dividia com mais quatro amigos quando vi uma mulher abandonar uma criança na praça. Estava muito frio, eu sabia que não adiantaria ir atrás da mulher, peguei o bebê e o levei comigo, e o levei pra sempre. Era meu filho… Eu conheci meu marido há dois anos, ele parecia ser um bom homem, honesto e disposto a ficar comigo mesmo sabendo que eu tinha esse filho. Ele nunca soube que não é meu mesmo, ou sei lá o que seria capaz de fazer. Quando nos casamos, ele adotou meu filho como se fosse dele, e o colocou num colégio interno… Isso é o que ele diz. Eu preciso saber onde está meu filho! Isso é tudo o que me prende aqui… Não posso fugir sem saber onde procurá-lo… Me ajuda?”

Fiquei sem reação. Era um caso bem cabeludo pra se resolver, não sabia o que uma velha como eu poderia fazer pra ajudar, por onde começar ou o que procurar. Tentei acalmá-la, seus olhos estavam desesperados em mim, implorando por alguma esperança. Não pude desapontá-la, prometi tentar descobrir onde era o tal orfanato, prometi também que não contaria nada na vizinhança. Saí com a sensação de ter uma grande missão pela frente, uma aventura tardia, revigorada. Claro que ela só me pediu ajuda por falta de opção, ninguém mais sabia tanto de sua miserável vida além de mim, e passei a saber ainda mais quando comecei a investigar o lixo e a seguir o facínora. Depois desse nosso primeiro encontro não sabia quando poderia vê-la novamente…

Written by Lia Drumond

maio 25, 2008 às 18:39

Publicado em Contos

Uma resposta

Subscribe to comments with RSS.

  1. Oi lindaaaaaa…
    Adorei o teu blog!!
    Show de bola..bjo e bom final de semana..

    Thá

    maio 30, 2008 at 18:57


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: