Lia Drumond

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O cão da praia

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Quando ele invadiu, nem imaginava que acabaria assim… Aquela casa branca, perfeita, com a vista mais linda de toda a praia…  ele tinha que entrar lá, queria se bronzear pelado naquela praiazinha linda e particular, sabia que poderia chegar lá nadando, e foi. E chegou. Esperava uma praia deserta, já sabia que um caseiro cuidava da casa em dias alternados, aquele era um dia em que nenhuma pessoa além dele desfrutaria daquele pequeno paraíso. Ao chegar na areia já arrancou a sunga, avistou a espreguiçadeira luxuosa e disponível, mirou o traseiro e ali se postou, como um paxá em seus domínios, fechou os olhos e sentiu o Sol, o barulho do mar e um rosnado…

Abriu os olhos e não acreditou que estava diante de um monstro daquele tamanho. Babando e  erguendo as bochechas, a fuça raivosa de um Rottweiller gigantesco. E territorialista, como qualquer cão. Não tinha atacado, ainda. Mas se ele fizesse qualquer movimento estaria perdido, aqueles dentes enormes rasgariam sua cara, lembrava de ter visto em algum lugar que aquela raça atacava direto no pescoço. Em um segundo imaginou sua garganta aberta aos abutres, que comeriam cada pedacinho de carne do seu gogó ossudo, sentiu um calafrio no estômago, vontade de mijar, mas ficou imóvel. Ficou imóvel por muito tempo, o Sol castigava seu pau, que nunca tinha sido exposto ao bronzeamento e ardia bastante, o suor de sua testa fazia seus olhos arderem também, mas ele não se mexia, aquele cão dos infernos estava bem na sua frente, só esperando uma deixa pra lhe estraçalhar o rosto e o resto…

Pareceram horas. O Sol castigava mais a cada minuto, o medo o fazia suar e tremer. De repente aquele cão dos infernos resolve deitar, mas não sai de perto. Ele sente uma ponta de esperança, talvez se o cachorro adormecesse ele conseguiria chegar até o mar pra fugir nadando. E sua esperança aumentava conforme o cachorro pegava no sono. Conseguiu alcançar a sunga, bem em câmera lenta a vestiu, sem sair da espreguiçadeira, sem se levantar. Todo seu corpo tremia por dentro e por fora de pavor quando colocou um pé na areia, olhava pro cachorro com uma expressão lunática de desespero, o quadrúpede continuou sua soneca, pareceu nem perceber que o cara estava tentando escapulir. E pé ante pé ele chegou até o mar, sentiu-se salvo, era só nadar e voltar de onde tinha saído pr’aquela aventura estúpida em propriedade alheia. Olhou pra trás e gelou: o cachorro tinha acordado e parecia estar apreciando sua fuga, sentado, com um ar debochado de quem está dando corda pra alguém se enforcar.

Apavorado, ele correu pro mar, pulou as ondas e começou a nadar. Uma braçada mais forte que a outra, vontade de vencer o mar e fugir pra sempre daquele monstro canino. Quando o mar não dava mais pé, resolveu parar e olhar pra trás,  de novo.  Não acreditou no que seus olhos viam, mais uma vez… Aquele maldito animal sabia nadar perfeitamente, e estava indo atrás dele…

Written by Lia Drumond

agosto 18, 2008 às 14:53

Publicado em Contos

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