Lia Drumond

É só um blog…

A tia Dirce…

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Começando a temporada de caça às bruxas, ou melhor, de histórias quase reais da minha ilustre família, decidi começar com a pessoa mais… bom, não sei uma só palavra pra definí-la. Por isso resolvi fazer um texto sobre a tia Dirce. Na verdade, ela é minha tia-avó, irmã da minha avó materna. Lembro de quando as duas brigavam em espanhol, minha avó boca suja, una malagueña muy orgullosa y valiente, mandava a tia pra tudo que era canto, e ela, fanática religiosa como sempre, ficava resmungando “Jesús! Cubre con tu sangre!” Eu, meu irmão e meu primo Guto, três pestes entre 5 e 7 anos, ficávamos arremedando e rindo que nem idiotas. Ela ficava p da vida e corria atrás da gente, era a glória!

Pensa numa bruja vieja. Sim, a tia DIrce sempre teve essa cara e, um dia, sei que a genética falará mais alto e não haverá pinça que dará conta dos pêlos das minhas verrugas. Mas enquanto ainda sou só uma feiticeira, posso fazer veneninho com a cara da tia. Desde que eu nasci ela é velha, muito mesmo. Mas um grande mistério da humanidade é o fato de, aos 78 anos de idade, ela não ter nenhum cabelo branco e nunca ter tingido os mesmos (sua religião não permite quase nada, só falar mal dos outros). Aliás, o cabelo dela é uma entidade. Ele não cresce, e ela fica louca com isso. Seu figurino é o de uma bruxa mesmo, mas quando ela inventa de pregar pedaços de babosa com grampos pela cabeça, fica um primor de alegoria. Ela também adora fazer coques com cabelos estranhos, e não fica nada discreto…

Diz a lenda que quando ela nasceu, tinha um “chifre” na testa e que seu pai queria jogá-la no rio por achar que se tratava de coisa do “demo”. Sua mãe não permitiu, claro, leoa como sua linhagem, e criou a penúltima filha, que era realmente diferente dos outros. A lenda também diz que até uns 9 anos de idade ela não falava nada, só cantarolava coisas como “lalala”. O lendário chifre não existe mais, nunca tive coragem de perguntar pra ela se é verdade, e também evito a fadiga. Ela parece ser meio surda, mas também parece que escuta muito quando se trata de alguma fofoca. E também é meio lelé quando quer. Um exemplo: ela odeia que deixem o portão de casa aberto, um dia comentou: “Portão que deixa aberto é o da padaria, do mercado. Mas se você vai no mercado e leva uma bolsa grande, tem que deixar no guarda volume!” Dizem que o pensamento dela sempre foi assim, que ela sempre foi assim.

E apesar de muito estranha, ela trabalhou durante quase 20 anos e se aposentou por invalidez (alguém percebeu que ela não batia muito bem da cuca depois desse tempinho), ficou casada por quase dez anos e não teve filhos, nunca teve outro homem na vida, tem habilitação para dirigir, vai pra igreja super protestante de extrema direita onde as pessoas se vestem como se fossem pr’um casamento todos os dias, cozinha muito mal, mas vive inventando maneiras de aproveitar alimentos e fazer coisas horríveis pra toda família experimentar (temos amor pela vida e fingimos que vamos guardar pra comer depois, pois acabamos de lanchar, sempre), não assiste TV ou ouve rádio, não lê jornais, só faz crochê. Higiene também não é lá o forte dela, nem paciência com crianças. Parece que os pequenos percebem isso e sentem um imenso prazer sádico em quebrar suas plantas e mostrar-lhe a língua.

Apesar de muito solitária, ela não perturba nenhum mamífero com sua carência, além de nós da família. Já teve uns passarinhos, mas acabou matando os bichinhos por excesso de comida. Não curte cachorro, muito menos gato. Fala cuspindo, muito, e pegando. Suas verrugas pinicam e ela fala portunhol quando quer meter o pau em alguém. Todo mundo entende tudo, mas ela dá uma de louca e tudo certo. E por tantos encantos é que a tia Dirce é um capítulo importante da minha vida. Não sou muito próxima afetivamente, não temos muita afinidade além da praga que ela jogou de que serei eu a próxima louca da família. Mas, ela foi e é muito importante, quando minha mãe se separou do meu pai, ela ajudou mais do que minha avó . De certa forma, ela é minha avó desde que a Dona Julia foi pra luz. Tia Dirce, uma figura. Ainda vou fazer um vídeo dela e colocar no youtube pra vocês verem que encanto…

Música da família na versão mais original possível: La Malagueña – Plácido Domingo

Written by Lia Drumond

outubro 2, 2008 às 1:10

Publicado em Brisas

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6 Respostas

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  1. Menina, essa tua história é digna da Casa dos Espíritos!!!
    Adorei tua tia.
    bjs

    elaine

    outubro 2, 2008 at 13:43

  2. Familia, famila… Um capitulo a parte. E sempre na exepctativa do “a seguir cenas…” Fofa a tia Dirce!

    Andrea Mentor

    outubro 2, 2008 at 22:11

  3. Tia Dirce com sua forma singular marcou história. Gosto da forma como os traços de uma vida ganham pulso nas suas linhas. A senhorita escreve muito bem! Sobre a tia, tenho algo particular a dizer – Gosto de pessoas assim. Que todos julgam louca. Jack Kerouac dizia “Para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações.” Não encontro outras palavras para dizer, senão essas palavras do amado escritor que já partiu. Na minha humilde opinião, tia Dirce é assim, louca pela vida.

    Beijos, até breve.

    R.Vinicius.

    outubro 5, 2008 at 15:02

  4. Falta vc escrever sobre tua mãe……rsrsrsrsr

    nereide

    outubro 18, 2009 at 21:41

  5. SENSACIONAAAAL !!!!
    Alfinetadinha da Nereide, que deve muito povavelmente ser a mãe e do fake que só a Lia sabe quem é.

    Joakin

    maio 19, 2011 at 20:17

  6. Kkkkkkk, muito bom! E tudo verdade! Aquelas tortas loucas que ela fazia e pedia pra todos experimentar, a surdez que some quando o tititi começa, a intimidade dela com as crianças… nem imaginava que ela tinha carta e essa lenda da infância dela é verdade? Mesmo assim, saudade de quando ela entrava na casa da sua mãe falando feito matraca sobre um assunto que ninguém entendia e sua mãe ficava “tá bom, tia, verdade, tia”, rsrsrs. Ah, e faz o vídeo!

    Guaci

    agosto 23, 2011 at 10:44


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