Lia Drumond

É só um blog…

Cozinhando na pressão

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Se ela era escritora? Claro que não, apenas sabia escrever. E todos seus personagens eram sua fuga pro que queria ter coragem de viver. Não que lhe faltasse coragem na vida, talvez ânimo, talvez interesse…  Como personagem não se achava grande coisa então quase tudo era autobiográfico, mas era quase tudo mentira. E vivia na pressão. Vivendo numa cidade enorme, desumana mesmo com (ou talvez por ter) tanta gente, feia durante o dia e perigosa à noite, sentia-se vivendo na barriga de um monstro. E sentia-se mal por não sentir-se tão mal com isso. Ela tinha um nome estranho, Larilará. Seu pai era um músico bêbado e apaixonado que morreu cedo demais, o nome que ele escolheu contribuiu muito para a infelicidade de Lara – era como ela se apresentava para não ter sempre de explicar o motivo constragedor pelo qual seu pai escolhera batizá-la de maneira tão ridícula.

Ridícula era uma de suas palavras favoritas, aliás. Quando odiava alguma coisa, taxava de ridícula.Vivia pressionada com prazos, tinha sempre de entregar algum release – que é um texto idiota feito para as assessorias de imprensa venderem seus clientes pra mídia – pra ontem, tinha de dar conta de revisar textos de formandos antes dos prazos finais, pois estes quase sempre eram incapazes de fazer um bom trabalho de conclusão de curso ou mesmo de admitir a própria incompetência e encomendá-los com justa antecedência, tinha de dar conta de dois filhos quase crianças e quase adolescentes, tinha de ser mulher e tentar ser feliz. Era feliz se felicidade significa ter o que se precisa para viver como saúde, família, trabalho. Não era feliz por nunca relaxar. Sentia que nunca mais tinha dormido uma noite sossegada desde que seu primeiro filho nasceu. E a coisa só foi aumentando, as demandas da vida só cresceram e ela continuava se sentindo a mesma. Alguns dias ela acordava e se perguntava se tudo era real mesmo, onde ela estava quando toda sua vida aconteceu até aquele ponto ou como o tempo podia passar tão despercebido.

Então ela resolveu escrever mais um capítulo pro romance que não concluía nunca. Escrevia aquela maldita história há sete anos, tudo já tinha mudado de rumo quinze vezes, ela já teria escrito pelo menos seis livros diferentes se não fosse tão insegura, indecisa, insatisfeita consigo mesma. Insólita. Tanta vida passou por ela que a fez intrigar quem viveu menos e irritar quem viveu mais. Era o caso. Tinha sentido-se desafiada por aquela vaca que a atormentava desde que eram crianças. Oh! A senhora vaca-botox continua casada e deixa a filha única com uma babá quando vai semanalmente relaxar num spa. E ainda tinha coragem de dizer que não gostava de ler livros, só revistas. Uma inútil, uma fútil, uma abominação que precisava ser  repelida e superada. Ela terminaria seu romance, seria publicada e seria melhor e mais feliz que a vaca-botox. Ela não queria acreditar que podia estar errada sobre mulheres burras serem apenas objetos, mesmo considerando muitas vezes que burra tinha sido ela por deixar a juventude passar sendo orgulhosa demais para usar sua beleza no lugar das idéias. Ela era muito inteligente, mas era muito burra…

Naquela manhã resolveu visitar o cenário de sua travada ficção – o Teatro Municipal. Era uma construção antiga, fantasmagórica e que a encantava desde criança. Sua família tinha um senso de humor muito negro, típico dos sarcásticos Andaluzes e seu pai sentia um sádico prazer em contar terríveis histórias de belas mocinhas que iam sozinhas ao teatro e desapareciam nas garras de monstros e fantasmas que viviam (viviam?)  em um subsolo secreto que estava ligado aos esgotos da cidade. Ela gostava de lembrar do medo que sentia. E ali, no imponente Teatro Municipal, buscava inspiração para continuar seu romance. Sua heróina já tinha descoberto os monstros e os esgotos tinham se tornado uma rota alternativa para fugir dos que a perseguiam. E o romance empacou ali. Nada incrível depois da descoberta dos tais monstros… Nada além de mais um café na lanchonete mais próxima e mais uma tarde entre lembranças dos traumas da infância.

Continua…

Música pra 2009 começar: Be quiet and drive – Deftones

Written by Lia Drumond

janeiro 5, 2009 às 16:14

Publicado em Contos

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5 Respostas

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  1. e continua…. pronto… parece novela das 8hs….

    Estarei esperando para tecer comentários….

    Guto

    janeiro 5, 2009 at 19:29

  2. muito legal… fiquei curioso pra saber mais sobre a vaca e quero ver se vc vai contar a história de um livro dentro de um livro… seria legal

    gui

    janeiro 6, 2009 at 9:18

  3. Feliz 2009, tudo de melhor , que esse ano seja repleto de coisa boas !

    Saudade do seu cantinho !
    Bjoss

    Bárbara

    janeiro 6, 2009 at 13:38

  4. Não sei ao certo se isso será um elogio ou uma crítica, depende…
    Mas esse texto puxa prum estilo que gosto muito, mas que é uma faca de dois legumes. A Fernanda Young escreve assim, e eu de fã virei crítico.
    Porque tal estilo exige, no meu caso, que a pessoa escreva MESMO (entende, né? ao gosto do freguês… mais idéias e menos forma…)
    A Fernanda Young ficou só na forma, embora eu ainda considere alguns livros dela dignos de leitura.
    Mas como você não é ela…

    …I need more…

    Kid

    janeiro 7, 2009 at 0:25

  5. Gostei das duvidas da personagem… Gostei dela, mesmo que implicitamente, querer descrever e querer buscar a felicidade (o que é felicidade?). Gostei de ela ser inteligente e burra! (Alguns são inteligentes, mas quem não é um pouco burro? Quem? O que é ser de “fato” inteligente?)
    “burra tinha sido ela por deixar a juventude passar sendo orgulhosa demais para usar sua beleza no lugar das idéias.” realmente, até p/ isso tem de ser inteligente… Mas escolher as idéias como principio é ter a certeza que conquistou por se ser o que se é, não apenas subornador que paga as propinas no mundo c/ a beleza… Todo mundo perece, usemos todas as armas p/ atingir a tal felicidade, inclusive a beleza a sensualidade enquanto a possuímos, isso não significa que precisamos ser só isso… Sermos fúteis!
    Conta mais!
    Bjuras 2009 repleto de desejos realizados p/ ti

    Wlado

    janeiro 7, 2009 at 12:27


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