Lia Drumond

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Cozinhando na Pressão – Parte 2

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A tarde acaba, ela resolve voltar pra casa quando vê um buraco de esgoto sem tampa ao lado do teatro. Nada demais, pensou por um segundo… Mas viu uma cabeça muito familiar aparecer e desaparecer ali dentro – seu filho Gabriel. Ela reconheceu seu rostinho ainda de anjo, apesar da recente acne e do cabelo pintado de verde. E ficou aflita, gritou seu nome, mas ele tinha desaparecido dentro do buraco. Será que estava louca, finalmente? Correu até o buraco e olhou para se certificar que já estava alucinando, mas foi como um soco no estômago. Gabriel descia uma escada e olhou pra cima, deu um sorriso pra mãe e continuou descendo, parecia estar alheio aos seus berros histéricos… E ela ficou sem reação, apesar do pânico que começava a enjoar o estômago. Nem se perguntava a razão pela qual seu filho descia ali, o que ele fazia fora de casa, ela simplesmente não conseguia pensar. Só foi junto, só entrou no buraco e desceu as escadas, só foi atrás de sua cria. Chamava o filho, nenhuma resposta e a escada parecia que nunca acabava, a descida parecia lhe restituir a razão – que diabos era aquilo tudo? E descia, chamava o filho, descia, descia.

E acabou num buraco, literalmente. Nenhuma luz, a fraca abertura pela qual desceu não era suficiente pra iluminar aquele inferno fedorento.  – Gabrieeeeel! Bieeeeeel! Ela chamava, sem resposta. Recomeçou a duvidar de sua sanidade mental, afinal o que seu filho de onze anos estaria fazendo ali, um lugar como aqueles? Nada de luz, pegou na bolsa o celular para tentar iluminar aquela treva toda, quando o visor acendeu levou um tremendo susto ao se deparar com… aquilo.  Apesar de parecer ser uma motocicleta no melhor estilo dos Abutres, estava sobre trilhos que pareciam aqueles das minas subterrâneas. Realmente deslizavam sobre os trilhos, pois ao iluminar o lugar e levar um susto, percebeu que alguma coisa parecida com… aquilo estava se deslocando bem na sua frente e sumiu da visibilidade. Nas trevas qualquer luz é Sol, apesar da bateria estar na metade, a luz daquele celular era todo o conforto que ela tinha ali, e parecia funcionar. Ela percebeu que estava num lugar muito, muito estranho. Restos de carros alegóricos de Carnaval, restos de carroças ou carruagens, restos de civilização, tudo podre e medonho. E ela não sabia o que estava acontecendo, acreditava estar no subterrâneo do teatro, acreditava estar atrás de seu filho que se enfiou naquele buraco. Subiu naquele veículo híbrido de moto do Capeta com trenzinho de mina e ele começou a deslizar pelos trilhos, a velocidade foi aumentando, mais nada era reconhecível.

Como uma cega na montanha-russa só conseguia sentir a vertigem da descida e das viradas. Só pra baixo, provavelmente acabaria no inferno, ou no Japão. E por que seu filho se enfiou naquele buraco? Provavelmente pra chocá-la. Ele realmente tinha extrapolado os limites dessa vez, ela pensava num bom castigo pro pequeno meliante, talvez tirar a internet dele por umas semanas… Sentiu culpa, remorso, medo e aflição depois de pensar em puní-lo. Como poderia pensar nisso num momento tão… tão… ridículo! Era isso mesmo, tudo aquilo era ridículo. Ela ainda não conseguia acreditar. E essa era a prova de sua sanidade, pois qualquer pessoa que achasse comum estar num subterrâneo como aquele só poderia ser louca. Só uma mãe consegue ser tão louca ao ponto de descer ao inferno, acreditar que o filho estava a frente e que conseguiria voltar com ele pra casa, como quando sumiu no parque e ela ficou quatro horas procurando. Otimismo materno é tudo, só uma mãe é capaz de ser tão otimista com tão pouco, só ela é capaz de ver num ser com cara de joelho, sem dentes e totalmente indefeso o futuro da humanidade e achar que isso é uma coisa boa. Mães… As boas são todas iguais. Onde aqueles trilhos acabariam, afinal? Deu mais um grito, pra se certificar de estar fazendo alguma coisa além de se deixar levar pelas circunstâncias: Gabrieeeeeeel!!!!

Continua

Musica desta sexta: Neither heaven nor space – Nada Surf

Written by Lia Drumond

janeiro 9, 2009 às 10:53

Publicado em Contos

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2 Respostas

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  1. “ela pensava num bom castigo pro pequeno meliante, talvez tirar a internet dele por umas semanas…”

    detalhes tão pequenos de nós dois…. eu pensaria um castigo menos formal, devido a situação. talvez retirar dele os volumes não lidos de Italo Svevo, Stendhal, Luigi Pirandello… sim, todos os capa duras voltariam para a caixa embaixo da cama. menos o Kafka, que não se obriga alguém a interromper leitura na metade!

    muito bem! estou ansioso com o andar dessa carruagem

    Gero

    janeiro 11, 2009 at 20:17

  2. Fatos relevantes:
    *Toda mãe por extremo zelo pira, tem alucinações c/ seus filhos (Ele ta drogado, ele ta em má companhia etc)
    * Agora se o filho dela vai p/ inferno, ela vai atrás, e olha… ela consegue trazer de volta, não duvidemos disso!
    Mas conta tudo de uma vez, ou demore menos p/ próximo capitulo… to ansioso!!!

    Wlado

    janeiro 14, 2009 at 22:45


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