Lia Drumond

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Cozinhando na Pressão – Parte 3

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Chegou no inferno, era o que pensava. E nenhum sinal de seu filho, nenhum sinal de vida, morte, luz. Nenhum sinal, então lembrou que tinha um celular que iluminava as trevas com seu visor, mas sem sinal para comunicação. Naquela hora isso nem importava tanto, ver onde estava era mais urgente que pedir ajuda. E pra quem ligaria? Como explicaria onde estava ou, melhor ainda, como tinha chegado ali? Só queria achar o Gabriel e sair dali. Continuou chamando o filho enquanto tentava enxergar alguma coisa, andava perto da parede onde estava a escada, não podia perder a escada também… Sentiu uma porta que parecia gigantesca na parede, tentou iluminar a fechadura com o celular e viu que só abriria por dentro. Forçou e abriu, parecia que já estava aberta, então entrou. Uma luz esverdeada acesa fazia a fumaça que existia no lugar parecer ridícula e artificial como a névoa que surgia em cenas de pântanos filmadas em estúdio. Mas ali não parecia ser um estudio…

E um ser ridículo estava sentado no que parecia ser um trono de cocô, pois estava tão velho e nojento que não era mais possível identificar se era feito de madeira, ferro ou lixo. Ele estava olhando pra ela, ao seu lado estava Gabriel, ou o que ela acreditou ser seu filho pois olhando agora parecia outra coisa.  – Gabriel? É você, meu filho? Nem se mexeu, apenas olhava pra ela como quem olha uma paisagem ao longe. Ela gritou mais alto, seu estômago congelou e uma queimação subiu das bochechas pras orelhas. E continuou aos berros: O que você fez com o meu filho? A respiração já nem parecia humana, ela tinha incoporado a fera que protege a cria, urrava pelo filho, foi pra cima do filho tentando protegê-lo, talvez enfiá-lo em sua bolsa de mãe-canguru e sair pulando. Ela não mais dominava a razão. Seu filho não tinha a menor reação. A coisa nojenta no trono resolveu falar, sua voz era chiada, como se suas cordas vocais estivessem podres, saia uma fumaça verde de sua boca quando falava, ela se esforçava para entender o que dizia.

Xeu fio pote boltar… HAHAHAHA!

Ela não entendeu muito bem, mas o pote boltar soou algo como pode voltar, ela pegou o garoto no colo e correu, nem sentia o peso de um quase adolescente, ela corria como se estivessem sob bombardeio, como se ele tivesse o peso de quando tinha dois meses, como se a permissão do monstro da boca podre fosse, na verdade, uma ameaça. Tudo estava muito escuro, mas seus olhos já tinham se acostumado quando, de repente, tudo ficou muito claro, como se tivesse levado um golpe de luz que a deixou cega. Piscava, piscava… O foco voltava, era dia ainda, um lindo entardecer. Seu filho estava ao seu lado, dormia em seu colo com a expressão de anjo que tinha desde que nasceu e que ela acreditava que ele não perderia nunca. Ela não quis acordá-lo logo, apesar de não entender como ele estava ali. Talvez, talvez tudo tenha sido um pesadelo. Será que ele teve o mesmo sonho?


Written by Lia Drumond

janeiro 20, 2009 às 12:05

Publicado em Contos

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2 Respostas

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  1. muito bom, sinto até influência de algo que ando lendo… vai ser uma pena se você não continuar esse texto, eu gostaria de saber o que levou o menino a entrar no esgoto e o que aconteceu por lá

    gui

    janeiro 20, 2009 at 16:33

  2. Olá dona Lia Drumond!!! Feliz 2009 pra vc tbm mulher… saudades…

    Pelo atraso na resposta, notas que tenho trabalhado demais… hehe

    Falando nisso, como está no trampo novo? Correndo tudo tranquilo???

    Pois bem, já que pediste, estou respondendo ao envio de vosso MEME à mim na mesma moeda…

    bjo

    Danilo

    janeiro 21, 2009 at 15:22


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