Lia Drumond

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Contagiante

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Talvez fosse importante, talvez em morte seria finalmente reconhecida por ajudar o mundo, pois até agora nunca conseguiu levar os créditos de todo o  esforço. Quando teve a visão de que seu quarteirão expodiria e mataria quase todos, conseguiu convencer o terrorista a não detonar a própria vida e a de seus vizinhos se jogando aos pés dele, oferecendo-lhe o  corpo e pecado para poder chantageá-lo com a culpa. Isso o fez fugir não só da tentativa de massacrar o regime opressor do país capitalista dela, mas também a própria religião, etnia e passado. Talvez tenha sido a pior foda da vida dele.

Mas ela viu a própria morte e o que significava? Quando previu que ficaria doente, conseguiu evitar que toda água da cidade fosse contaminada em um acidente entre dois caminhões: um que transportava resíduos radioativos e o outro lixo hospitalar. O lixo da colisão escorreria na chuva até o rio que abastecia a estação de tratamento, e as doenças resultantes seriam totalmente desconhecidas. Mas ela conseguiu atrasar um dos caminhões furando os quatro pneus, o que garantiu que o tempo necessário seria dado para o outro caminhão chegar seguro com o lixo inseguro.

Se ela se contaminasse, perderia a imunidade da visão. Por isso vivia tão sozinha, por isso nunca criou laços. Mas sabia que o fim estava próximo, seu fim. Não que fosse uma surpresa antever o que aconteceria, mas sentia que aquilo era uma  ingratidão do destino. Ela, que para poder ver e saber sobre tudo e todos,  nunca tinha vivido a própria vida. Uma heroína caída, desconhecida e muito infeliz… Um capricho da vidência? Por que sua morte era importante?

Se ver no momento derradeiro foi assustador não pelo sangue seco que manchava aquele vestido todo, nem pelos cortes por todo seu corpo e a dor que viu que sentiria, mas por estar só . Morrendo sozinha, sem nenhum ser vivo para sentira sua falta. Talvez nem ser morto sabia de sua existência. A que ponto chegou sua vida? Ao ponto da morte… Sim, todas as vidas acabam, mas quase ninguém pode dizer que viu a morte. E talvez ninguém mesmo mereça um fim tão melancólico. Por que não poderia ter visto sua morte numa festa no clube das mulheres? Talvez por que nunca tinha tido coragem de visitá-lo. Mas já que sabia do fim que se aproximava, sacou umas notas do banco e saiu de casa decidida a enfiá-los numa cueca bem recheada…

Musique du jour: Where did you sleep last night – Nirvana

Written by Lia Drumond

março 16, 2009 às 11:04

Publicado em Contos

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Uma resposta

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  1. você me contaLia…

    Gui

    março 16, 2009 at 14:22


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