Lia Drumond

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Maldições

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Já estava começando a acreditar na lenda de que sua família nasce para ser triste, como se infelicidade fosse transmitida geneticamente e o fatalismo liderasse a iniciativa de todas as pessoas do clã. Ele não sentia-se preso ao estilo deles, apenas ao destino fatal de ser infeliz e miserável, ainda que mais por dentro do que por fora, ainda que eles não o considerassem como um igual. Ele era infeliz, ora, e não haveria de ser diferente. Sentia-se diferente de todos os que lhe eram conhecidos por ser descendente de quem era, mas também era diferente destes e herdara mais a maldição da infelicidade que qualquer outra característica. Maldições, assim como todas as mulheres da família exibiam verrugas que adquiriam vida e personalidade próprias depois dos trinta anos, assim como todos os homens tinham unhas dos pés horríveis e braços finos. Ele era infeliz como todos de sua família, ainda que não tivesse braços finos ou unhas horríveis ou fosse mulher para exibir verrugas horrendas. Cada um possuía uma vida diferente, apesar do  que era herdado geneticamente e fatalmente transmitido aos descendentes, mas quase todos que lhe eram próximos padeciam e acreditavam na maldição lançada há dezenas de gerações em um ancestral que torturou uma bruxa por ignorância e curiosidade sobre seus poderes. E, dizia a lenda, antes de ela finalmente sucumbir após muito sofrimento na mão daquele crápula, lhe disse que toda sua corja sofreria de uma insatisfação crescente, o que seria a origem de toda infelicidade e desgraça em suas vidas, e que pra sempre assim o seria… E, então, a velha morreu, e mudou de forma para transformar-se num velho pedaço de madeira podre. E o sádico ancestral sentiu-se insatisfeito como nunca antes e morreria infeliz e insatisfeito por nunca ter satisfeito a grande curiosidade que o fizera prender e torturar a pobre e esquisita velha de seu povoado,  a qual todos acreditavam ser capaz de curar a cegueira das pessoas na maioria dos casos em que a pessoa não tinha nascido com tal problema. Ele queria, por pura e egoísta ambição financeira, cobrar dinheiro para ir de cidade em cidade curando a cegueira alheia, não queria ser concorrente da velha bruxa, mas ela não lhe quis ensinar seus segredos, não admitia que ele fosse atrás de quem estava cego, dizia que só quem buscava a luz merecia ser curado e que isso não tinha preço, que era proibido vender tal poder. Velha burra, pensou ele em sua grande infelicidade e em seu leito de morte. E percebeu que burro tinha sido ele, pois mesmo sem ter tal habilidade que tanto desejou descobrir com a tal anciã, tinha conseguido o que almejava na vida, tinha dinheiro, herdeiros saudáveis e mesmo assim era insatisfeito e, portanto, muito infeliz.

E sua viúva viveu para ver dois de seus seis filhos suicidarem-se por sentirem-se infelizes, viu que nenhum dos outros quatro se dizia satisfeito ou feliz quando adulto, contou sobre a maldição aos que estavam em sua casa no dia de sua morte. Dois de seus quatro filhos que ainda viviam, nove netos e um bisneto. E a lenda da maldição foi transmitida e evitada muitas vezes entre os descendentes do torturador, alguns ramos da árvore genealógica simplesmente a ignoravam,  outros cultivavam forte fé na profecia de que todos os descendentes do torturador seriam insatisfeitos e isolavam-se do desejo, alguns viraram budistas, outros eram padres franciscanos. Muitos queriam evitar passar a maldição da infeliz insatisfação para o futuro, mas o gerador de todo esse fatalismo deixou muitos filhos e netos, muitas gerações até inventarem métodos anticoncepcionais alternativos ao celibato. Muito sangue nasceu do sangue do agressor maldito e, mesmo que ele fosse inocente, não era ignorante sobre a lenda e sabia ser da família que o criara, apesr de não ser reconhecido como tal. Também não reconhecia real insatisfação em todos seus familiares, suas irmãs sempre lhe pareceram muito satisfeitas por serem víboras em uníssono contra qualquer manifestação de felicidade, criatividade ou inteligência. Religiosas e tinham, então, todo o poder de quem interpreta mal o que lê e adapta como convém para aplicar contra algo que seja interessante, embasando o veneno em conhecimento alheio, de gente que teve coragem de deturpar a história para divinificar pessoas e fatos esquecidos. Ah, ele odiava suas irmãs, nunca sentiria-se satisfeito por ter o mesmo sangue delas. E aí identificava em si a tal maldição. Talvez fosse tudo verdade verdadeira de verdade…

Continua (ou não…)

Written by Lia Drumond

janeiro 24, 2010 às 13:50

Publicado em Contos

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