Lia Drumond

É só um blog…

Maldições 3

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Leia a parte 1 e parte 2.

“E meu pai, se não me engano, se chama Nintendo…”

Era uma provocação, isso ele sabia identificar. Mesmo não sendo um pai afetuoso e presente, lembrava-se de ter assistido algumas discussões de Julieta com a mãe e de como achava graça do humor sarcástico e cruel da menina ao debochar do conhecimento materno. Era ácida, bocuda e delicada. A palavra que lhe ocorreu quando soube que era considerado menos importante que o video game foi ‘agulha’. Sim, uma espetada, alfinetada, um ponto.  Era preciso recosturar sua relação com a filha sem dedal, doeria nos dois, mas não queria perdê-la, queria ser admirado por ela, ser considerado bom pai. Sabia que ameaçá-la de morte não resolveria, teria de ser pelas vias tortuosas do sentimentalismo complicado, que nunca tinha sido o seu forte.

– Sabe? A sua mãe escolheu seu nome, Julieta… Ela quis que fosse um diminutivo do meu por que me amava muito… Sei que nunca fui..

– Ah, me poupe… Nos últimos três anos esse foi o maior diálogo que você manteve comigo. Não sabe o que dizer para me consolar? Diga que vai desaparecer da minha vida e me deixar em paz!

– Mas você tem treze anos! Está pensando que pode morar sozinha?

– Não preciso morar sozinha, mas aguentar suas irmãs insuportáveis e óbvias é mais agradável que suportar sua presença. Você sabe o que matou a minha mãe… e o que provavelmente vai me matar um dia. Eu já devo estar morrendo, aliás…

Ele não sabia o que dizer. Deixar a filha para as irmãs dele criar seria um presente para elas e uma pena para a filha, que provavelmente morreria praticamente virgem e amarga como as tias. Como salvar da tristeza a filha estando ele próprio tão condenado? Apenas observou Julieta observar o funeral da mãe, voltar para casa, entrar no quarto e trancar a porta. Decidiu que não bateria à porta para pedir que saísse, sabia que ela devia estar chorando as lágrimas que engoliu na frente de todos, para mostrar como era como ele: forte. Agora pesava tudo o que sabia sobre a filha que estava sempre ali mas nunca precisou dele. Apesar de ser o pai e nunca ter se afastado do lar surpreendia-se ao lembrar de um tio dizendo que a menina era igualzinha a ele quando menino, principalmente no gênio difícil. Lembrava o que amigos lhe diziam sobre a filha, ele realmente não sabia muito sobre ela. Lembrava do que mulher lhe contava… Sim, ela sempre falava da menina, mas ele nunca prestava muita atenção, tudo parecia sempre mais reclamação chata, cobrança de mais algum sentimento que não conseguia expressar ou dar valor.

Ela já não falava muito ultimamente, lembrou…  Será que percebeu o quanto a filha estava (ou era?) triste?

Written by Lia Drumond

fevereiro 9, 2010 às 6:45

Publicado em Contos

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Uma resposta

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  1. Tenho acompanhado o conto… adorando!

    Álisson da Hora

    fevereiro 9, 2010 at 11:19


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