Lia Drumond

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Maldições 4

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Aflito por querer estar mais próximo de uma filha presente e tão distante, ele apenas observava. Tentava não se abalar ao conhecê-la, ao enxergar nela a crueldade de suas irmãs e a beleza de sua falecida esposa, ao saber que era mais que menina moça e que já tentava seduzir homens mais velhos para conseguir favores ou apenas se divertir, ao perceber que o orgulho da filha era só mais um artifício que usava para puní-lo… Mas não era suficiente. Ela, com certeza, iria mais longe se tudo continuasse como estava e ele não fazia a menor idéia do que fazer para impedí-la, nem se deveria ou  se conseguiria. A garota se aproximava das tias, pois percebeu que isso o incomodava… Não que gostasse das velhas, muito pelo contrário. Detestava as intrigas das conversas, percebia um grande despeito e muita inveja em todas as observações que faziam sobre a vida alheia, sabia que eram infelizes. Dira, a ‘múmia mais velha’ era uma viúva feliz. Só feliz por ser viúva, pois adorava ser alvo da piedade alheia. Fazia bem o papel de pobre e pequena velhinha viúva e sem filhos, adoecida pelo esquecimento e presente em todas as ocasiões alheias de indiscrição. Tinha ficado viúva aos trinta e cinco anos e nunca mais se casou, seu falecido tinha se suicidado depois de perceber que nunca estaria livre da maldição que significava estar com aquela mulher. Deni, a ‘múmia mais nova’ era uma cópia maior de Dora, e sempre era lembrada pela irmã de que tinha pernas gordas de leitoa. Ambas eram a personificação da engenhosidade humana para intrigas e ninguém escapava delas sem responder alguma pergunta pessoal como se fossem suficientemente íntimas para tal ousadia.

Ora, duas velhinhas quase inofensivas. Suas intrigas já tinham destruído vários casamentos, as crianças eram proibidas de brincar fora de casa depois que ‘elas’ convenceram o pároco de que sujeira era coisa do demônio, todos os namoros eram observados de perto pela dupla, através da igreja conseguiam infernizar um número grande de vidas e pareciam gostar muito disso. Ele realmente acreditava que suas irmãs gostavam de fazer o mal, que não havia qualquer boa intenção no fundo de suas atitudes mesquinhas, não que ele se achasse muito melhor, mas pelo menos não estragava tudo de propósito. A filha sabia que ele detestava as irmãs e entendia os motivos, mas queria ferir o pai. Dois dias se passaram e a filha anuncia, enfim, que não quer ficar mais com o pai, que pretende ir embora para a casa das tias.

As tias se olham, olham para o pai e Dira fala: “Não queremos nos responsabilizar por uma perdida que quer ser como os homens… Nem saia você usa, só anda com machos e só vai à igreja aos domingos, como sua falecida mãe, por obrigação. Vai morrer que nem ela, doente de tanto ser usada por um homem infiel…”

Julieta não levantou o olhar, como se estivesse apenas complementando o que ouvia, disse: “E também não quero acabar seca como uma lésbica enrustida… que acabou com a vida da irmã e do marido para infernizar mocinhas que usam saia e que, raramente, tem a chance de tocar em alguma… Vou com vocês porque vocês sabem que isso será o pior pra ele e é o que todas nós queremos, não é mesmo? Não precisam confirmar, coragem é uma virtude e vocês não possuem nenhuma… E se insistirem em discordar, vou sair contando o que sei sobre as aulas para moças e sobre o caso da Deni com o retardado do irmão do coveiro…

“Oh, isso é uma ameaça, mocinha? Você realmente merece e precisa de uma punição corretiva… Isso é linguajar de uma Jezebel na Babilônia! Não deve nem ser mais donzela por dizer coisas tão impuras!”

“Ah, não, não, não… Isso não é uma ameaça, é uma promessa. Minhas malas estão prontas. Por que vocês ainda estão aqui?”

Written by Lia Drumond

fevereiro 17, 2010 às 11:12

Publicado em Contos

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