Lia Drumond

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Maldições 5

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Ele não poderia tolerar aquele comportamento, para o bem da própria filha teria de impor sua vontade. Ainda que não soubesse como continuar criando uma moça, ainda que nem soubesse ser o pai que ela precisava. De jeito nenhum queria ver a filha triste a amaldiçoada, pensava em fugir da cidade assim que o caixão de sua esposa desceu a sepultura, não sabia onde queria ir ou o que fazer, mas sentia que a jornada lhe mostraria o caminho… e sentia uma estranha força de vontade crescendo no peito, formada pelo ódio que sentia da própria história e destino.

Sua casa era toda de sua esposa, cada detalhe para o qual ela havia lhe chamado a atenção em busca de aprovação agora gritava a culpa de sua indiferença. Os retratos em cima de vários móveis mostravam os bons primeiros momentos da família, que foram ficando cada vez mais raros. A última fotografia de todos juntos era de cinco anos atrás e ninguém estava muito sorridente, lembrou-se do dia em que foi tirada – ele estava de ressaca e tinha passado a manhã inteira trancado com suas quinquilharias no sótão e só depois que a esposa insistiu muito, por horas seguidas, resolveu sair e dirigir até o estúdio que a mulher tinha reservado horário, chegaram quarenta minutos atrasados e ela chorou ao se desculpar muito constrangida com o fotógrafo. Ele lembra de ter pensado que ela estava menstruada e insuportável…

A colcha artesanal feita para cobrir o sofá que ainda parecia novo, tamanho o zelo que ela tinha pelas coisas, as porcelanas no armário sempre em ordem, a cozinha sempre com um cheiro de pimenta… Não aguentaria viver sob o teto de toda a estupidez cometida. Pegou duas grandes malas e colocou quase toda sua pouca roupa em uma e todas as caixas de ‘bobagens sentimentais’ de sua esposa em outra, sabia que numa dessas caixas encontraria alguma resposta para lidar com a filha. Não sabia bem como convenceria a garota a arrumar as malas e partir com ele, mas decidiu investir na presumida autoridadede paterna e agir como o maior interessado no bem estar dela. Nem que tivesse de arrastá-la pelos cabelos.

Depois de pensar em como falaria com a menina e ensaiar várias abordagens enquanto arrumava suas coisas, parou na frente da porta do quarto dela. Passava por ali algumas noites e a via dormindo,  sempre prometia a si mesmo que no dia seguinte a levaria para um passeio, mas nunca se lembrava da promessa quando a ressaca o despertava e terminava o dia em mais uma bebedeira com os amigos ainda boêmios por que eram feios demais para arrumar uma esposa ou por que se descobriram cornos precocemente. Ir embora siginificava abandonar a vida de Julian, o fanfarrão pinguço que tocava gaita toda noite na banda do boteco “Os Irremediáveis” – nome intragável, idéia do pau mole do Ivan que sempre tinha as piores idéias. Abrir aquela porta significava sair daquela vida, sabia que não haveria volta.

Abriu a porta e as malas da garota estavam prontas, realmente. Ela não parecia surpresa de vê-lo, apenas quando viu as malas dele é que se deu conta de que não iria pra casa das tias. Fingiu que não sabia, por dentro explodia de felicidade por saber que o pai não queria abandoná-la, mas não queria demonstrar a satisfação. No fundo, ela achava que isso era o mínimo que ele poderia fazer, não abandoná-la como fez com sua mãe. Se perguntava se conversariam durante a viagem, jurou que não puxaria assunto. Por mais que a curiosidade a corroesse, não perguntaria para onde seguiam e armaria uma grande cena assim que chegassem em qualquer lugar, para que ele pensasse que ela queria mesmo ir para a casa das tias.

Ela sabia que ele queria se aproximar, mas decidiu que não seria idiota e boazinha como sua mãe, que o amava por escolha. Ela o amava por falta de opção, era o pai que conhecia, não era bom, mas já tinha ouvido sobre pais piores. E acreditava que esse amor fosse recíproco da mesma maneira, que ele só lhe amava por obrigação. Então não o agradaria e não se deixaria enganar, se ele quisesse provar ter qualquer valor teria de se esforçar. Teria de merecer sua atenção.

Ele se preocupava em não ser um maldito infeliz, ligou o rádio do carro para distrair os pensamentos de caos e insegurança sobre o futuro. Assim como gerações ignoraram a maldição na esperança de escapar, ele tentaria viver o mais normal e alegremente possível. Longe da família maldita talvez pudesse recomeçar e, talvez, descobrir uma maneira de fazer sua filha feliz.

Written by Lia Drumond

março 3, 2010 às 22:08

Publicado em Contos

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Uma resposta

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  1. Por medo de errar pode ser q ele erre novamente.
    Lindo o conto!

    Ariane Mazza

    março 4, 2010 at 13:21


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