Lia Drumond

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Maldições 6

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Ela fez o escândalo ensaiado quando chegaram a um hotel na beira da estrada e sentiu na própria pele o que sua mãe deve ter sentido se algum dia brigou com o pai. Ele a encarou friamente, como se olhasse através e visse algo maravilhoso. Apenas observava, como se ela não estivesse realmente ali, se esgoelando. Ela gritou que queria ir para casa das tias durante quase quinze minutos, pessoas se aproximaram para ver uma garota gritar com um adulto quase velho e se afastaram quando perceberam se tratar de filha e pai. Ela sentiu esperança de que o tinha atingido quando as pessoas se aproximaram, esperava que ele se sentisse constrangido com o vexame, mas nada… Impassível, zen, autista, maldito.  Ela ameaçou dormir no carro e ele argumentou que tinha um quarto para cada um. Ela gostou da idéia de poder ficar sozinha durante a noite toda num quarto de hotel, onde nunca tinha estado antes. De cara feia e pisando duro à caminho da recepção, se calou. Ficou pensando se ele sabia que ela estava fingindo… Sentou numa poltrona e não respondeu ou olhou para o pai quando este lhe estendeu a chave de seu quarto. Ele se aproximou e lhe beijou na cabeça, disse que estaria no quarto ao lado, colocou a chave em seu colo e saiu. Quarto 38…

Quando ela se viu sozinha com um frigobar abastecido de bebidas e uma noite toda pela frente resolveu que beber não era grande coisa e, se tantos o faziam e sobreviviam, ela seria capaz de aproveitar só o que havia de bom na experiência. E quase vomitou depois do primeiro gole do que a garrafa dizia ser whisky, achou que mais parecia algum produto de limpeza, mas insistiu misturando com refrigerante e o segundo gole foi menos horrível. Seus pensamentos estavam voltados para o homem no quarto ao lado…  seu pai, que poderia acompanhá-la num drink se não fosse um bêbado… ela não, ela sabia que não devia beber muito… beber e ficar bêbado eram consequências, mas muitas pessoas bebiam e nem todas ignoravam sua família ou eventualmente acordavam nuas no quintal de casa depois de serem espancadas por invadirem a residência alheia, bêbados…

Ela bebia e sentia que nesse momento poderia ir até o quarto dele e lhe dizer que precisava aprender a beber, pois era um idiota… E ria sozinha se imaginando dizendo pra ele, na cara, o quanto ele era idiota por não saber beber, por não saber se controlar. Ria e bebia ensaiando sermões que daria no pai. E ficou bêbada com um quarto da garrafa, comeu salgadinhos, assistiu à TV, dançou, ligou para sua única amiga e falaram por duas horas, tomou todos os refrigerantes disponíveis, vomitou e adormeceu no banheiro.

Quando acordou, se deu conta do que tinha feito e de que seu pai saberia o que ela tinha bebido na hora de pagar a conta. Pensou numa saída, mas era tarde demais para tentar sair e comprar outra garrafa e colocar no lugar. Quando seu pai bateu à porta, gelou, gritou que precisava tomar banho porque tinha acabado de acordar, precisava de tempo. Ele esperaria e, assim que ela se deu conta disso, foi tomada pela idéia de que ele jamais poderia lhe repreender, ele era apático e um péssimo exemplo, sobretudo nesse caso. Tomou demoradamente seu banho, saboreando na imaginação as situações possíveis caso ele lhe disesse alguma coisa… Talvez ela desejasse isso. Deu-se conta de quão triste era ansiar por um conflito e, com um sentimento gigantesco de dúvida e peso no peito, chorou por algum tempo deixando a água cair na cabeça silenciando todo o resto… Seu pai bateu à porta novamente, ela levou um susto e fechou o chuveiro.

Written by Lia Drumond

março 30, 2010 às 13:10

Publicado em Contos

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