Lia Drumond

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Obediência

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(uma breve pesquisa que fiz há alguns anos…)

Estudando conceitos da sociologia e conhecendo um pouco da história da humanidade, é fácil pensar em questões para se discutir a realidade. Questões afloram em cada canto da desigualdade, mas poucas são as respostas. Abaixo, alguns conceitos sobre a obediência e desobediência.

Excerto I

“Porque o homem é tão propenso a obedecer e porque lhe é tão difícil desobedecer? Desde que eu seja obediente ao poder do Estado, da Igreja ou da opinião pública, sinto-me seguro e protegido. De fato, pouca diferença faz o poder a que obedeço. Trata-se sempre de uma instituição ou de homens que usam a força, de uma forma ou de outra, e que fraudulentamente reivindicam para si a onisciência e a onipotência. Minha obediência me torna parte do poder que cultuo e, por conseguinte, sinto-me forte. É impossível que eu cometa erros, pois ele decide por mim; é impossível que eu fique só, pois ele vela por mim; é impossível que eu cometa um pecado, pois ele não me permite fazê-lo e, ainda que eu peque, a punição será apenas a maneira de voltar a submeter-me ao poder todo-poderoso.” (FROMM, Erich. Da Desobediência e outros ensaios. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1984. p14-15.)

Excerto II

“O problema com as emoções é que elas não são facilmente controladas pela razão; é geralmente bastante inútil tentar livrar-se de sentimentos como a aversão, o ódio ou a luxúria somente a partir de raciocínios. As emoções precisam ser controladas de uma maneira diferente, sendo treinadas por um longo período de tempo, preferivelmente desde a infância. A filosofia moral de Aristóteles é notável pela atenção que dá à eficiência do treinamento moral e à ineficiência da mera discussão moral. ‘Se os argumentos fossem suficientes por si sós para fazer os homens serem bons, eles teriam amealhado muitas recompensas'(aqui fala o próprio Aristóteles); ‘mas como as coisas são, eles(os argumentos) não são capazes de encorajar muitas pessoas a se tornarem dignas’. Os homens devem ser bem treinados e habituados, sob a orientação das leis, costumes, educação e disciplina da família. ‘Não faz alguma diferença, então, se formamos hábitos bons ou maus em prol de nossa juventude; faz muita diferença, ou melhor ainda, toda a diferença.”(The Cambridge Companion to Aristotle. New York: Cambridge University Press, 1996. 2° edition. página 213)

Excerto III

“Um indivíduo incapaz de fazer parte da polis não é um ser humano, mas sim um animal não-humano, enquanto que aquele que basta a si mesmo completamente, sem ter necessidade de fazer parte da polis, é um superhumano, ou, como Aristóteles assim diz, um deus.”(The Cambridge Companion to Aristotle. New York: Cambridge University Press, 1996. 2° edition. página 239)

É mais fácil obedecer do que desobedecer. Mas, qual a razão? Por que é mais fácil obedecer?

Obedecer é a regra do nosso sistema. E por sistema, entende-se toda a organização política -econômica- social-cultural-religiosa, criada e apoiada pela parcela dominante da sociedade, com a finalidade de fomentar cada vez mais a produtividade, aprofundando a dependência dos indivíduos à divisão social do trabalho(*), e segmentando valores que impedem uma inversão da lógica de obediência.

É mais fácil obedecer, porque sendo esta a regra do sistema, a obediência não traz ao indivíduo nenhum prejuízo. Pode até trazer-lhe benefícios, na medida em que um indivíduo se destaque na função de exortar seus pares à obediência. Outro motivo é a moral. A virtude tem sido identificada pelas religiões ao lado da obediência, enquanto que o pecado está sempre ao lado da Desobediência (porque será?). Essa Moral está vinculada à Educação, constituindo aquele instrumento de controle sobre o qual Aristóteles tece elogios. E tal educação moral é tão poderosa, que o homem, depois de aprender desde a infância a obedecer, sente medo de desobedecer, de ser, por conseqüência, punido.

Nossa sociedade possui vários elementos que empurram os homens comuns aos abismos da obediência, são eles: o caráter privado das forças de produção, a “educação moral”(a qual consegue convencer a maioria dos homens comuns a serem obedientes), as forças armadas(que tem a função de persuadir qualquer recalcitrante a voltar a seus afazeres e desistir de uma “luta inútil”). As Tradições e as Religiões, juntamente com a Educação(**) formam a tríade principal do Controle Social, pois ensinam os valores da obediência; é importante lembrar que a lógica de tal tríade é baseada no exemplo. A Lei tem mais poder sobre o ser humano do que se pensa, pois ela pode determinar sua prisão, punição, apropriação de bens, exílio e até a pena de morte em muitos países. A Guerra também é um instrumento de controle porque é através dela que múltiplos interesses econômicos são satisfeitos com o custo desprezível de uma porcentagem da população pobre jovem do país.

Os impostos também são um instrumento de controle. Por último, o mais ardiloso de todos, é o instrumento de “Ilusão”: ilusão de voto (fazer parte do governo e poder mudar os rumos do país… será?), ilusão de que o homem comum pode melhorar de condições com trabalho e com a experiência que conquistar, de modo que possa montar seu negócio no momento que lhe for oportuno, e a ilusão de que o pensamento ostentado por cada indivíduo adulto seja próprio e autêntico.

“O homem da organização perdeu a capacidade de desobedecer e nem sequer tem consciência do fato de que obedece. Nesse ponto da história, a capacidade de duvidar, de criticar e de desobedecer talvez seja tudo o que se coloca entre o futuro da humanidade e o término da civilização”. (FROMM, Erich. Da Desobediência e outros ensaios. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1984. p.17)

Notas

(*)Quando se fala em aprofundamento da divisão social do trabalho, quer-se dizer que os indivíduos cada vez mais ficarão dependentes das forças produtivas, as quais encontram-se sob o poder das empresas, portanto, fora da esfera de ação dos homens comuns. Em outras palavras, trabalha-se cada vez mais, ganhando cada vez menos, com um número de opções de compra cada vez maior. É o Trabalho Assalariado e o Consumismo.

(**)A Educação de hoje caracteriza-se por seu caráter profissionalizante, o que retrata a dedicação da sociedade à produção, e pela moral, mas não apenas no sentido religioso, mas principalmente no aprendizado de valores de obediência, honestidade, confiança nas instituições públicas, no voto, nas liberdades civis, e, por último, na existência de comida, dinheiro e trabalho suficiente para todos os homens comuns, desde que se devotem a uma vida de trabalho duro(será?).

Written by Lia Drumond

junho 22, 2010 às 15:22

Publicado em Brisas, Livros

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2 Respostas

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  1. hahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha!!!

    ta bom então…

    hahahahaha

    junho 24, 2010 at 1:15

  2. Adoro suas escrituras! huahuahau

    Bora desobedecer?

    Samantha

    junho 24, 2010 at 17:09


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