Lia Drumond

É só um blog…

Heróica

with one comment

Ainda que apenas superficial, sentir um relaxar nas amarras… Ela estava presa ao resto do mundo. Condenada. Culpada por não pertencer, por mudar de idéias e mudar idéias. Perturbou a ordem nada pacífica dos sádicos que saboreiam a emoção apenas na tragédia alheia, ela não chorou quando tudo lhe foi tirado, quando tudo lhe foi negado e quando lhe violaram os pensamentos. E foi lá que encontraram o que  a denunciou: a boa vontade da força de vontade. Ainda que nada parecesse favorável, sua imaginação enfeitava possibilidades. Incomodou aos que pregavam o medo incapacitante, desafiou o confortável com sua atitude criativa, esfaqueou a autoridade pouco antes de zangar todo o estabelecido. Torturada para aceitar a existência da igualdade, perdeu a consciência tantas vezes por saber-se diferente, por considerar a singularidade sem temer no outro o reflexo de sua ignorância. Temia, sim, a ignorância que impede o toque do reconhecimento.

E então, de vez em quando, ela acordava para receber mais uma dose de tortura. Pensava quando seria a última vez, de uma vez por todas, a vez que acabaria com sua agonia de saber-se presa e condenada ao mundo. Seu consolo era saber que voltaria ao coma confortável de impotência. Ainda que a liberdade fosse conquistada, ela não queria sair para um mundo onde pessoas intolerantes e indiferentes davam as cartas. Não esperava herói ou redenção, esperava evolução e isso a dotava de imortalidade. Ela não sabia mas, depois de décadas, nenhum sinal de passagem do tempo em seu corpo jovem espantava quem entrava e saía daquele calabouço. Nem a fome, nem o frio, nem o coma ou a tortura a dobraram, nem sequer adoeceu. Esquecida, considerada morta pelos que a conheceram, só aqueles que a mantinham prisioneira tinham alguma noção de sua pessoa. E ainda a odiavam…

Se ela saísse, se o mundo pudesse aceitar que pessoas podiam ter opiniões diferentes, credos distintos, cores e falas diversas, se a tolerância fosse um princípio… Se tudo isso acontecesse o mundo seria um lugar maravilhoso, mas não aconteceu ainda. Décadas, séculos e ela continuava presa, imortal e esquecida. Esperando…

Ops, música do foo, pra variar: D.O.A – Foo  Fighters

 

Written by Lia Drumond

outubro 15, 2010 às 8:50

Publicado em Contos

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Uma resposta

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  1. Nossa, comentário:
    -Sem comentários!

    sahveiga

    outubro 15, 2010 at 23:02


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