Lia Drumond

É só um blog…

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Burrice ryka!

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É mais fácil ver a culpa no outro, se encastelar na própria experiência de vida como se todo o universo só existisse para si. É conveniente fingir que não entende o problema, é mais fácil distorcer um fato do que analisá-lo sob a luz da razão. Aliás, todo mundo acha que tem razão, mesmo que nem saiba o significado dessa palavra. Faz tempo que não escrevo por achar que tudo é repetido, cansei de gastar dedo e tempo para mostrar essa indignação que só deixa as pessoas acomodadas incomodadas. O problema não são os pobres ignorantes, mas os ricos reacionários, que nem reconhecem serem ricos. “ah, eu trabalhei para ter comida em casa e nenhum ‘vagabundo’ tem direito de ganhar de graça”. Me deparo diariamente com a alienação de gente que tem dinheiro para pagar por cultura, gente que poderia ler bons livros e tornar-se menos ignorante. Mas essas pessoas não querem educação, acham que não precisam. Elas têm curso superior, são de’formadas’. Não precisam saber o que é a sociologia, o feminismo, a política. Falam sobre carros e viagens, falam sobre coisas que têm, raramente têm algo interessante para dizer sobre o que são. Sério mesmo que o máximo que já ouvi dessas pessoas é “sou (inclua aqui torcedor de algum time de futebol, descendente de tal etnia ou um adjetivo pátrio)”. Triste. Há exceções, mas tão raras que sentem-se intimidadas. Sentipensantes são flores pisadas pelos estúpidos que pensam que nada pode atingir quem tem dinheiro. Gente que luta por algo além do próprio dinheiro é cada vez mais raro.

“Mas eu trato bem os meus escravos…” é a frase que pareço ouvir diariamente dos velhos reacionários e dos infelizes jovens rykos e alienados. Cansei dessas pessoas que fazem de tudo para aparecer.  Hoje prefiro olhar para quem realmente precisa ser visto, gente que tem salvação, pois só lhe falta dinheiro. Empatia é coisa difícil de encontrar naquele que acha que ter é mais importante do que ser. Fico na torcida maligna de que esses reaças riquinhos morram logo, pois são minoria apesar de sustentarem e fomentarem tanto consumismo e tanta desigualdade… O mundo precisa evoluir.

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Written by Lia Drumond

junho 22, 2012 at 16:44

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Blogagem Coletiva: Estupro de Queimadas

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Primeira vez numa blogagem coletiva, mas é imprescindível. A vontade é de sair quebrando tudo, fazendo o mundo ver que ser mulher também é revoltante, difícil achar uma que nunca pensou se não seria mais fácil ser homem. Pois ao homem tudo é permitido, tanto que historicamente são eles os ‘chefes’ da família, para eles que todos devem responder. Às mulheres, a vergonha. Tenha vergonha de ser mulher, por ser mulher, para ser mulher. Homem pode até ser um tremendo idiota, mas mulher, nem isso… Ninguém vai dizer do homem idiota: “Só podia ser homem!” Às meninas ensinam que devem se cuidar, preservarem-se da opinião deles. “Prendam suas cabras que meus bodes estão soltos!”. Aos meninos, ensinam que ser mulher é menor, é feio: “Vai chorar igual uma mocinha?” Claro que há gente tentando mudar essa realidade, mas ainda sobrevivemos assim. Rindo da desgraça alheia… Embebedar pra transar é realidade que quase ninguém considera abuso, nem as vítimas. Acham que por terem bebido são culpadas do abuso, pois desde cedo escutam “cu de bêbado não tem dono”. Temos direito de comprar o álcool, de usá-lo, mas não temos direito sobre nosso corpo quando sob o efeito? A culpa NUNCA é da vítima. A vítima não é culpada por usar tal vestido, por ter saído com, por ter entrado no carro, por ter paquerado, por ter beijado, por estar na festa do estuprador, etc… A culpa É do estuprador.

A festa em Queimadas, na Paraíba, foi um presente de ódio para todas as mulheres. Aqueles homens não tiveram um pingo de empatia, não pensaram nem por um momento em suas mães, irmãs, filhas… Nem por um segundo qualquer dos malditos pensou que poderia ter nascido mulher e que isso não o faria menos gente. Ninguém pede para nascer, muito menos para nascer homem ou mulher, branco, rico, cristão, brasileiro, corinthiano. Por acaso nasceu homem e isso não o faz melhor. Difícil, homem, entender isso? Subjugar prova a fraqueza dos que não têm poder para cativar… Aqueles bandidos planejaram o ataque na festa, sabiam que era um crime, mataram com tiros nas virilhas as mulheres que os reconheceram, todos os indivíduos do sexo masculino participaram do estupro coletivo de ‘presente de aniversário’ e nenhum foi humano. Imagino se têm mãe, se fosse eu mãe de dois monstros desses talvez não segurasse a barra de colocar a cara na rua nunca mais… prefiro a morte. Infelizmente não falta speed porco para dizer que se as mulheres não estivessem numa festa de caras suspeitos, nada teria acontecido e estariam seguras. Enganam-se feio. Mulheres não estarão seguras enquanto os homens não entenderem que temos os mesmos direitos, somos feitas da mesma carne e osso.

Ser estuprad@ acaba com a confiança no outro ser humano, mulheres e homens que passaram por essa tragédia carregam traumas incuráveis, muitos sofrem de depressão pelo resto da vida e até cometem suicídio. O fetiche do estupro, tão utilizado na ficção e até fantasiado por homens e mulheres, é muito diferente da violência real. Imaginar e até combinar uma ação que TODOS os participantes querem realizar é válido. No caso de Queimadas, os ‘homens’* planejaram uma sujeira imensa, tragicamente inesquecível e fatal para duas mulheres, tudo por conta da imaginação de poder que aqueles indivíduos têm. Nenhum deles estaria arrependido se estivesse em liberdade, muitos são os asquerosos que contam ‘vantagem’ sobre abusos que cometeram, muitos são os que justificam a própria agressividade culpando o alvo de sua agressão: “Ela era uma vadia”, “Ela dava pra todo mundo”. “Ela era uma prostituta”. Se mulher usasse os mesmos padrões para rejeitar ou agredir os homens, coitados… E mulher que julga as outras por achar que caráter e expressão estão na vagina também é de doer na alma. Há gente influente no meio desse crime tão sórdido e por isso pouco se falou do caso na grande mídia. Aliás, crimes contra mulheres sempre tem espaço menor no noticiário apesar de sempre terem muito espaço nas novelas. A mocinha linda com o canto do lábio roxo pode até ser sexy, mas imagina sua mãe com todos os dentes quebrados, cara toda roxa e aflita por pensar se pegou aids do estuprador. E, se ela for idosa, imagina um ‘comediante’ dizendo que o estupro foi uma ‘oportunidade’ para ela, que por ser velha deveria agradecer o estuprador…

Acontece todo dia, mais um caso horrendo de violência contra mulher, mais estatística… Peraí, está na hora de mudar isso. Lei Maria da Penha já vale ainda que a vítima não denuncie então, se souber de alguém que apanha e fica quieta, chame a polícia. Denuncie e incentive a denúncia de violência. Os homens precisam saber que não estamos desprotegidas diante de seus ímpetos…

* (gostaria de chamá-los de algo tão sórdido que nem existe palavra, algo que soasse como ‘seres repugnantes que merecem apodrecer do pau pro resto de maneira bem dolorosa e incurável’)

Som: Worry about you – Ivy

**(em tempo?) Este post é participação na blogagem coletiva de repúdio ao caso de Queimadas, convocado pelas Blogueiras Feministas e pelo Luluzinha Camp. Se o caso também te revoltou, escreva e participe da ação!

Written by Lia Drumond

fevereiro 17, 2012 at 10:05

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Humildade?

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É meu dilema a percepção de que fui enganada, mas não quero mais. A impressão é essa. Não só pela família, mas tudo o que vi, li, assisti, ouvi e aprendi dizia e repetia que nascemos por algum motivo, que para crescer e me considerar  madura era preciso evoluir e ser melhor, maior, mais inteligente e bondosa. Ser bom sempre foi a grande lição de toda a moral de quase toda história. Claro, ser bom sempre é confundido com ser obediente e ingênuo, mas nunca vi bondade ser sinônimo de indiferença para com o sofrimento alheio. Aí que já posso me julgar adulta agora que não sou adolescente e tenho crianças sob minha responsabilidade. Ou seja, posso dizer que cresci, apesar de acreditar estarmos todos em pleno desenvolvimento até o fim de nossas existências.

Hoje em dia a lição é outra: seja igual. E não é seja igual ao melhor, sabe? É seja igual a média, seja medíocre – queira sempre mais, compre sem pensar, não aceite sua aparência normal, pense como a maioria. “Não ofenda os outros com lições de moral sobre ser melhor!” Mas existe melhor, sim. Quando existe o que menos prejudica, este é melhor. Hoje em dia o errado está certo. O politicamente incorreto é um nome que ganha admiração pela ignorância da maioria em relação ao que é política. Preconceito não tem graça e só quem se acha acima do bem e do mal pode julgar menor o sofrimento alheio. Liberdade de expressão não significa liberdade de ofensa e agressão. Ecologistas ganham cada vez mais apelidos pejorativos por defenderem o lar que deveria ser de todos, pacifistas são agredidos para que tenham medo de defender em público sua não reação à violência, cientistas são cada vez mais raros por se dedicarem ao conhecimento, mulheres são mortas impunemente para que não possam influenciar. Depois que cresci, querem me ensinar que preciso ser estúpida para ser aceita. Ainda bem, apesar de tudo, ainda não me acho tão estúpida.

Gentileza, bondade, cordialidade, humildade para aprender- sempre há mais, há muito mais do que poderíamos saber ainda que dedicássemos a vida toda. E, ainda assim, não é preciso tanto. É preciso apenas que cada um seja mais capaz de trocar de lugar com o outro e perceber que é frágil a diferença que nos separa.

A chuva não molha apenas um tipo de gente, o Sol clareia o dia de todo mundo que está vivo… Quando há dor, não importa em quem seja ou qual meio haja (ou não) para resolver, dói igual.

Written by Lia Drumond

dezembro 18, 2011 at 7:38

Publicado em Brisas

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Ah, Mulheres…

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Ser mulher é muita coisa, quem sou eu pra definir, né? E ser feminista, o que é? Complicado responder isso depois de conhecê-las… Vi pluralidade e brilhantismo, nunca encontrei tanta mulher genial por metro quadrado e fiquei encantada. Nem sabia que eu era tão feminista, nunca fui fã de rótulos, mas feminismo não é uma marca, não é uma religião ou diretriz moral. Feminismo é respeito, pois a idéia que todas defendem é de empatia, como incentivar as pessoas a se colocarem no lugar de outras e a pensar sobre suas atitudes, inclusive em relação à mulher.

Enquanto cresce a voz das mulheres no consumo, nos meios de comunicação e na política, também vemos aumentar os discursos  utilizando-se do anonimato da web para cometer crimes de racismo, injúria e incitação ao crime. Feministas são alvo de todo tipo de preconceito não só por parte desses criminosos, mas por parte das próprias mulheres que não enxergam a opressão sexista. Mas em vez de se preocuparem com trolls, estão preocupadas com regulamentação da comunicação, assunto urgente, deturpado e ignorado pela grande mídia; querem que o Estado cumpra seu papel laico e faça respeitar a própria Constituição,  que o professor seja respeitado e valorizado pela sociedade.

Enfim, são muitas as discussões e idéias que me inspiram. Feminismo é fundamental e deve ser incluído na grade curricular das aulas de História, pois é muito importante que as mulheres saibam que têm muito mais em comum do que nossa cultura machista deixa transparecer. Não somos rivais, somos irmãs. O machismo existe e oprime muitas filhas que não sabem ter proteção da lei, muita mulher engole o machismo, cresce e vive condicionada a acreditar que é incapaz de mudar a realidade. Muitas riem das piadas sexistas que agrupam mulheres como se todas fossem iguais e respondessem da mesma forma, não percebem que o politicamente incorreto geralmente é burro e apela para estereótipos ridículos. (ei, redundante!) Muitas acreditam de verdade em revistas que divulgam ‘pesquisas’ sobre os reais “desejos femininos”, de que mulheres se sentem mais realizadas com a ‘santa trindade’ dona de casa-esposa-mãe em pleno século vinte e um.

É difícil não se revoltar por ser a única chata em tanto espaço, mas no I Encontro das Blogueiras Feministas encontrei várias outras tão chatas quanto eu. Primeiramente, foi uma lição de vida. Mulheres tão admiráveis e tão próximas, tão abertas ao encontro, tão inteligentes que senti orgulho de fazer parte, sabe? Eu, que achava que era melhor ser homem nesse mundo tão injusto, senti que é possível ser mulher e ser realmente forte se formos mulheres unidas. Foi bonito descobrir que sou feminista e que isso é bom não só pra mim, mas para meus filhos e para o mundo!

Música, faz tempo… Eletricityscape – The Strokes

Written by Lia Drumond

outubro 22, 2011 at 21:37

Publicado em É com a Lia

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Preparação

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Admito que o medo é tema corriqueiro em meus pensamentos, a surpresa é que não mais apenas por ele que sou motivada. Pois ter medo é freqüente não só em idéia, é na vida, na cultura e coisa e tals… Depois das merdas que acontecem não adianta pensar. Qualquer pessoa com inteligência média é capaz de perceber o quanto a maldade pode ser mantida velada, o quanto a segurança pode estar enganada. Me pergunto quantas pessoas são  mantidas em bunkers de países devastados por guerras antigas e que hoje são ricos… A polícia pode encontrar depois de anos, prender o maldito bandido mas, e daí? Os anos que a pessoa prisioneira perdeu, a vida condenada por lembranças e pensamentos ruins, nada compensará. Câmeras que filmam babás agressoras… O que penso é cruel, mas fato é que eu avisaria qualquer pessoa que trabalhe pra mim sob vigilância que ela está sendo gravada, depois de bater em meus filhos será tarde demais. É melhor prevenir do que remediar… Minha surpresa em relação ao medo é não encará-lo mais de frente, tenho mais a perder. Tenho tudo a perder… Questões sobre ter ou não ter não funcionam quando realmente se tem, talvez só quem tenha possa realmente entender…

Ano que vem está chegando e, se tudo mudar, o fim de nossa era vier e se nada houver, será bom ter aprendido a fazer mais coisas práticas como costurar e cultivar, caso a gente sobreviva. Penso em fazer também uns intrumentos musicais que estão num livro velho que achei. Livros, eles não se acabarão com o fim da energia elétrica, talvez a sua produção… Sorte de quem conseguir (primeiro achar, né) imprimir e manter o que há de útil no google… É bem bacana fazer coisas e acabo dando muitos presentes por não ter tanto espaço. Nesse findi tem dois aniversários de criança para ir e os presentes serão um robô e um vampiro feitos por mim, é muito legal saber que não haverá presente igual. Como também é muito legal a salada que cresce na varanda e vou colher com meu filho para realizar sua fantasia de protagonizar a maldita propaganda de danone que vende marketing ecológico para justificar o preço absurdo de seu produto de sempre. Deixo ele fazer essas coisas, sei lá se amanhã precisarei ensinar coisas mais tristes que o nascimento de uma salada. Sei que nunca fui assim, tão medrosa…

Penso que há muito futuro pela minha frente, não vejo de outra maneira, não consigo. Ter meus filhos nos braços dá superpoderes e o maior medo da vida. Sou mais do que posso e faço até o impossível por eles… No livro que achei tem até como fazer um banjo.

Música, para celebrar tempos de paz – que não acredito do fundo do coração serem duradouros – tão inspiradores: The Subways – I want to hear what you have got to say

Written by Lia Drumond

agosto 2, 2011 at 10:17

Escolhas

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‘Cada escolha é uma renúncia’ – cresci ouvindo essa máxima, nunca pensava nela profundamente até que, um dia, cresci ou passei a crer que me dizer adolescente não era apropriado. Escolhi uma vida que me enche de medo, sou cheia de responsabilidades e ainda fico pensando, o que só faz piorar a agonia de viver. Porque a ignorância é realmente a chave para a felicidade mas, uma vez infectado pelo vírus da curiosidade, nunca mais o sossego é pleno. Hoje tenho dois anjos sob minhas asas, mas não sei que homens eles serão nesse mundo louco, onde a tela é imposta como espelho de uma realidade maquiavélica promissora e inescapável. Senti o mesmo pânico quando meu primeiro filho nasceu, o medo do amanhã, o grande medo pavor do revés… Como se eu não fosse digna de tanta coisa…Vem a paranóia de voltar a ser o que era, até alta da internação consegui antecipar por já estar em pé horas depois da cirurgia, para me sentir forte como sempre fui – preparada para proteger meus tesouros com tudo o que tenho. Mais de um mês se foi, agora é a real mesmo, agora é que cai a ficha de que tudo mudou, de que eu trouxe um novo ser humano à vida e sou a maior responsável pelo seu crescimento. Escolhi isso por ser a coisa mais emocionante que eu poderia estar fazendo. Aventura nenhuma supera o frio na barriga de saber-se responsável – em todos os aspectos possíveis – por outro ser humano… A expectativa é tão grande que chega a doer, a vontade de ver um minuto do futuro pra ter certeza de que vai dar tudo certo, a certeza de que crescerão bem e bons. Agora só a certeza de que nada será como antes, pelo menos não aqui. Apesar de toda a fragilidade dessa calmaria, a esperança de que o tempo pare e nada mude nunca acaba.

Agradeço muito e sempre pela sorte que tenho, ainda que sou tão distraída e impressionável. Paranóica, confusa, cansada e muito satisfeita – talvez até empanturrada, ou pode ser apenas um mecanismo de defesa acionado pelo medo de perder. O amor que escolhi ainda é paixão que aumenta, planejamos fugir de casa como velhinhos rebeldes quando os meninos forem grandes para desejarem distância dos pais, planejamos nossa cerimônia oficial de casamento e já decidimos que o Arctic Monkeys não vão tocar 505 na nossa festa porque eles não tocam essa ao vivo tão bem quanto em estúdio, planejamos ter uma casa no campo para plantar nossos livros e discos e a utopia de viver em paz. Nossa sintonia é tão grande que dividimos pensamentos, e cresce… Escolhi aceitar esse amor, ainda que não me considere digna de tanta paixão.

Renunciei, talvez por enquanto, ao estilo aventureiro de me jogar no perigo. Ter a cara sempre cheia de coragem é o que fez  minha vida tão interessante até aqui, mas passou. Hoje considero válido ter uma arma, desconfio das pessoas, observo com empatia em vez de simpatia, o perigo não me atrai porque vejo um mundo muito cruel para quem é indefeso. Os fortes destroem os fracos em vez de protegê-los, a vida é realmente madrasta e nem sempre, nem de tudo, vou poder proteger meus filhotes, mas acho que a agonia faz parte da maternidade. É lindo apesar de tanto medo. É emocionante apesar da rotina inevitável. É fundamental no meu mundo desabitado ter esses dois reis para governar os monstros que criei antes de eles existirem – meus pequenos heróis que me salvam de mim.

Agora há também o medo de voltar ao mundo adulto, ser jornalista ou lecionar – ou fazer algo diferente para aprender alguma coisa nova. Escrever sobre temas que esqueço assim que tento formular o primeiro parágrafo, chover no molhado das atualidades absurdas, expressar meu horror com tudo o que não deveria ser, manchar o branco com meus pensamentos impuros… Queria sentir liberdade para não escrever mas é como se estivesse traindo a História que me prometi registrar – a História da minha vida. Quero agradecer a mim mesma por todas as escolhas que fiz por mim – e à minha mãe por tudo o que ela fez também, hoje eu sei…

Música, então: The way you wear your head – Nada Surf

Written by Lia Drumond

abril 19, 2011 at 16:39

Crianças indigo?

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As crianças e adolescentes não mudaram, ainda são projetos de gente, presunçosos e que precisam testar limites para aprenderem a ultrapassá-los com segurança…

Agora, os pais, estes sim mudaram muito. Antes, lá no antigamente, o pai trabalhava e a mãe ficava em casa, não necessariamente proporcionando atividades lúdicas e estimulantes para seus filhos, mas geralmente ralando para limpar a casa e, nos momentos de folga, ler uma revista ou fofocar com a vizinha. As crianças tinham a liberdade da rua, seguiam juntas para a escola e, geralmente, sem nenhum adulto por perto, brincavam mais longe da vigilância. Não havia culpa por parte de mãe ou pai pelo tempo que não passavam com seus filhos, pois viviam sob o mesmo teto e isso bastava.

Hoje em dia, a sociedade de consumo prega tanto perfeccionismo e exigência em relação às crianças que os pais sentem-se pressionados. As opções para os pequenos são mais variadas, melhores e mais caras do que para os adultos – mas quem trabalha e paga por tudo?? Empresas já planejam serviços que incluem as crianças por saberem que é um mercado infalível, nenhum pai nega o conforto que pode oferecer aos seus filhos – ainda que isso possa transformá-los em folgados inúteis.

Quando eu era pequena, e isso nem faz tantas décadas assim, havia menos opções para criança e raramente podíamos escolher. Mas me aproveitei muito da culpa que mi madre sentia por trabalhar fora e não ser o tipo de mulher que vive em função da casa e dos filhos, muitas vezes pressionei pelo que queria, consegui e me tornei pior, mais exigente, ingrata que só.  Só tive alguma idéia do que minha mãe sentia quando comecei a trabalhar e depois  saí de casa e precisei me sustentar. Quando tive o Américo passei a questionar o porquê de eu ter sido considerada uma criança tão terrível, já que ele é tão bonzinho. Acredito que ele é bonzinho porque eu não sou boazinha, sou bem diferente da minha mãe que sempre se preocupava com a opinião alheia sobre suas escolhas, me sinto mais livre do que ela em relação ao que é considerado aceitável pela sociedade.

Concordo que vivemos numa época em que as crianças são mais espertas, também fomos mais espertos que nossos pais quando eles eram pequenos, isso se chama evolução. Mas não devemos acreditar que criança e adolescente é diferente hoje, não são. São potencialmente mais inteligentes que os pais, mas estes são potencialmente incapazes de determinar o futuro de seus filhos por mais que tentem. É importante ser presente e estimular seus filhos, mas talvez seja mais importante cuidar bem da própria vida e sentir-se estimulado e feliz com isso, um exemplo vale mais do que mil palavras. Culpa não pode ser exemplo de sucesso…

Música que eu adorava quando criança: Aquarela – Toquinho

Written by Lia Drumond

janeiro 24, 2011 at 11:59

Publicado em Maternidade

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